Rua Onze . Blog

Setembro 23 2009

 

Luís Cardoso (n. 1958), Requiem para o Navegador Solitário (2007).

 

 

Representante da literatura pós-colonial de Timor-Leste em língua portuguesa, Luís Cardoso é certamente o mais conhecido e internacional dos autores timorenses contemporâneos. Antes do presente volume, publicara já Crónica de uma Travessia (1997), Olhos de Coruja, Olhos de Gato Bravo (2002), e A Última Morte do Coronel Santiago (2003).

 

Neste romance, começando por evocar Ruy Cinatti (1915-1986), poeta que consagrou grande parte da sua obra à memória e ao imaginário de Timor, o autor oferece-nos uma narrativa situada nas décadas de 1930 e 1940, época que culminou com a ocupação japonesa do território.

 

Desenvolvendo em volta da personagem principal, Catarina, uma visão particular de Timor, Luís Cardoso dá-nos conta de um improvável universo autocrático feminino afirmando-se na sociedade e na hieraquia masculina da região.

 

A par disto, faz-nos um retrato da convivência multilinguística na ilha e da subestimada importância da mestiçagem, através da própria protagonista e de outras personagens que orbitam à sua volta, como aquelas provenientes da Índia ou de Cabo Verde.

 

Do romance transcrevem-se duas breves passagens:

 

"Recusei tal oferta. Ela insistiu que Esmeralda, sendo filha de Alberto Sacramento Monteiro e eu, a noiva do pai, era como se fosse minha filha. Teve uma pequena hesitação ao escolher a palavra exacta para definir a minha condição, dado que Alberto Sacramento Monteiro era casado e tinha filhos, estatuto que escondeu dos meus pais. Na altura da sua visita ninguém quis saber se seria casado, se teria mulher e filhos. Quanto à minha condição, não me preocupei nada com isso. Eu era tida como a nona do capitão do porto. Nona em língua malaia significa senhora. Uma forma muito peculiar de dar o dito por não dito. Embora toda a gente soubesse qual a condição exacta. Era a mulher que ficava no cais a abanar o leque à espera do seguinte, depois de ter dado uns retoques na maquilhagem por causa de uma lágrima furtiva que se soltou aquando da partida do anterior."

 

 

 

"Kuroki fez saber ao capitão do porto, que quando os japoneses entrassem em Timor, teria muito gosto em ver Sir Lawrence a cantar o hino japonês. Achava que a sua voz rouca e melancólica se coadunava mais com uma canção oriental.

 

Mas quem levantava a âncora era ele, Alain Gerbault, o navegador solitário, que já tinha participado numa guerra e sabia como aquilo fora duro. Travara batalhas no ar e a sua vida tinha estado por um fio. Talvez fosse essa uma das razões que o fez buscar a paz do mar, longe do rebuliço e da ansiedade das grandes capitais onde se fabricam todas as guerras.

 

A sua respiração foi diminuindo, o coração ainda batia, mas lentamente. Num último esforço quis ver o sol para se orientar, mas já não tinha forças para abrir os olhos. Ainda tentei forçar-lhe a vista para me ver. Fiz-lhe a minha pergunta indiscreta

 

– Encontrou o que procurava?

 

e vi um leve sorriso atravessado nos seus lábios.

 

Um sorriso branco como o de um anjo. Chegado à terra do sol nascente tinha terminado a sua viagem. Há muito que andava em perseguição desse disco de oiro. Soltou uma prece

 

– Enterre-me no Mar, Catarina, enterre-me no Mar."

 

 

Edição brasileira, sem data, de O Navegador Solitário. Uma vez que não se refere o título do original, supõe-se que seja a tradução de L'Evangile du Soleil (1933), título que surge no último capítulo deste livro.

 

Alain Gerbault (1893-1941) efectuou uma viagem solitária de circum-navegação no navio Firecrest, entre 1923 e 1929. Na década seguinte regressou ao Pacífico, tendo acabado por falecer de febre tropical em Díli, Timor-Leste, a 16 de Dezembro de 1941.

 

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publicado por blogdaruanove às 16:51

Março 24 2009

 

De baixo para cima, no sentido dos ponteiros do relógio – quatrocentos reis, de 1790, reinado de D. Maria I (1734-1816; rainha, 1777-1816); dois escudos e cinquenta centavos (dois e quinhentos, cinco coroas, vinte e cinco tostões), de 1944; dez escudos (dez mil reis), de 1932, e dez centavos (um tostão), de 1915.

 

"Ainda não ouvi falar de escudos em Vizella. No que diz respeito a dinheiro, pelo que observo e pelo que me dizem, o Minho [em 1926] ainda reza pela cartilha monarquica.

– Como vende os figos, tiasinha?

– Seis á corôa.

– Como vende os lenços, menina?

– Oito mil reis a meia duzia.

Da mesma forma que não se fala em escudos, tambêm não se fala em litros, e o kilo ainda não fez esquecer a libra e o arratel.

– Quanto ganha vocemecê n'um dia, a fiar?

– É conforme, meu senhor. Posso ganhar cinco corôas, se fiar uma meada.

– E quanto pesa uma meada?

– Pesa libra e meia.

O lavrador do Alemtejo exprime a sua produção cerealifera em moios; o lavrador do Minho exprime-a em carros. É o carro de pão, milho ou centeio equivalente a quarenta alqueires. Aqui perto fica o solar d'uma senhora muito rica, possuidora de muitas quintas, pessoa de muito bem fazer e que recolhe, uns anos por outros, trezentos e sessenta e cinco carros de pão – tantos carros como dias tem o ano.

Contou-me o barqueiro do passeio á Ilha dos Amores que esta Senhora, aqui ha anos, teve de pleitear nos tribunaes uma questão de paternidade ilegitima, por ter o seu primeiro marido, de colaboração com uma francesa, engendrado um pimpôlho que se habilitou á herança do pai. Muito devota, a Senhora ofereceu cincoenta contos a S. Torquato se tivesse ganho a causa. Ao mesmo tempo constituiu advogados, não por ter menos confiança no Santo, mas porque havia certas diligencias a fazer junto das testemunhas, que não ficaria bem ao santo fazel-as directamente.

– E vocemecê acha que a Senhora ganharia a questão se a tivesse entregado a S. Torquato, dispensando os advogados?

Agóra ganhava! As testemunhas foram dizer ao tribunal o que os advogados lhes tinham ensinado, e foi por isso que a franceza perdeu.

– Mas S. Torquato recebeu os cem contos?

– Pois se a Senhora fez a promessa, havia de cumpril-a."

 

in Brito Camacho (1862-1934), Jornadas (1927).

 

 

Espécime de uma nota de mil escudos (um conto de reis) de Timor, emitida em 1968.

 

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