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Aki ó-matsu Hito ó-mayowasu Momiji-kana!...

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Aki ó-matsu Hito ó-mayowasu Momiji-kana!...

Documentos & Companhia

blogdaruanove, 09.07.09

 

Soneto autógrafo de Mayer Garção (Francisco de Sande Salema Mayer Garção,1872-1930), sem data, dedicado a sua filha Maria Júlia, publicado na obra póstuma Cantos da Esperança e da Morte: Inéditos e Dispersos (1932).

 

   Para Maria Julia

 

   New York

 

   "Cidade monstruosa!" ella lhe chama,

   – e és bem injusta, filha, d'esta vez,

   porque essa forja, que um vulcão inflamma,

   não devorou a tua pequenez.

 

   Pelo contrario: com piedosa chamma,

   amou-te a graça timida, talvez,

   e respeitou, na avesinha que ama,

   o seu coraçãosinho portuguez.

 

   Exhausta, no alto mar, uma andorinha,

   se acaso passa um collossal vapor,

   n'um astro [sic] poisa, a descansar do vôo.

 

   O mastro ri-se; a onda ri, mansinha...

   – Se egual sorriso deste á minha flôr,

   Ó ceo de New York, eu te abençôo!

 

   De teu pae

 

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Autógrafos - Mendes de Carvalho

blogdaruanove, 08.07.09

 

Mendes de Carvalho (1925-1988), Camaleões e Altifalantes (1963).

 

 

Com esta colectânea, Mendes de Carvalho surge como um poeta iconoclasta e desassombrado, recuperando muito do que de contestatário e anarquista poderia ter havido num surrealismo menos onírico.

 

Aspecto significativo, no entanto, é o facto de a sua poesia recusar qualquer afastamento dadaísta ou surrealista da realidade, característica daqueles movimentos da década de 1910 e 1920 e do tardio sucedâneo surrealista português, e reflectir uma auto-ironia sobre a criação literária do poeta, que acaba por denunciar o próprio (d)enunciante.

 

Anteriormente, Mendes de Carvalho havia publicado os volumes de poesia Timbre (1948) e A Voz e o Círculo (1955), o volume de teatro A Comédia e a Rua (1958) e o volume de contos O Rei de Montoyya (1960), mas este livro é que veio introduzir o seu período mais significativo e personalizado, que continuou em Cantigas de Amor & Maldizer (1966), Satírica (1974) e Poemas de Ponta & Mola (1975).

 

Mendes de Carvalho publicou ainda A 10.ª Turista (1972) e a peça infantil Aventuras de Animais e Outros Que Tais (1982; em co-autoria com Orlando Neves [1935-2005]). Postumamente, numa homenagem que pretendeu recuperar a singularidade da sua poesia, publicou-se o volume Noite Branca: Poesia (1994), com apresentação de Urbano Tavares Rodrigues (n. 1923), um estudo de Fernando Grade (n. 1943) e ilustrações de Álvaro Infante do Carmo (datas desconhecidas).

 

De Camaleões e Altifalantes transcrevem-se dois poemas:

 

   LUGAR

 

   O sol no asfalto queima

   uma velha cabeceia à soleira da porta

   a magnólia abre sonhos brancos

   inúteis

   a vila parece longínqua

   morta.

 

   Apenas um pássaro canta

   esquecido dos caçadores.

 

   DENÚNCIA

 

   Denuncio a máquina de fabricar tristeza

   denuncio os assassinos da paisagem

   o verso e o reverso das escritas secretas

   as organizações da angústia nocturna

   os que precisam de criada para todo o serviço

   e para uso próprio do menino da casa

   os investigadores puristas da moral alheia

   a oferta de flores injectadas de veneno

   os que escrevem cartas de recomendação

   os que apunhalam reputações com risos a três quartos

   os que recebem à linha para dizer bem ou mal

   os que têm a sua religião para as ocasiões

   os segregacionistas das little rock

   o santo e a senha de todos os lados

   os fabricantes de morfina com nomes potáveis

   a poética dolorosa de conversa fiada

   e [sic] arame farpado camuflado em fitas de inauguração

   os que têm coração apenas para as setenta pulsações

   denuncio os denunciantes.

 

 

Na autobiografia publicada em Satírica, Mendes de Carvalho escreveu:

 

" (...) Chateado com muitas coisas (algumas secretas), começou a fazer poesia de canino aguçado e publicou 'Camaleões e Altifalantes'. A editora era muito importante. Os críticos leram e, de um dia para o outro, acordou (também) importante. Ficou muito contentinho. Na mesma editora (o livro vendeu-se bem), saiu, três anos mais tarde, 'Cantigas de Amor & Maldizer'. Os críticos confirmaram que sim senhor e alguns falaram da sua família poética, uns tipos famosos. Como nesse tempo usava barba, afagou-a muito, muito compenetrado. Mais ou menos por essa altura, co-dirigiu uma revista de artes e letras, que teve pouca duração (para não fugir ao costume). Em 1972 (na maturidade), publicou 'A 10.ª Turista', peça muito discutida (é assim que é hábito dizer-se), mas não representada (é assim que é hábito fazer-se).

 

Se o leitor chegar até ao poema 'Antibiografia em trânsito', verificará que o autor é contra as biografias, especialmente as de pequeno curso, de navegação costeira. Dá-lhe vontade de rir (quando lê) o elasticizar do biógrafo a falar do biografado, a meter-se na sua vida, simpaticamente quando a 'celebridade' ainda anda por cá. (...) "

 

Note-se que no volume Camaleões & Altifalantes reproduzido, que pertenceu ao escritor, académico e crítico literário Luís Forjaz Trigueiros (1915-2000), se encontra assinalado o poema Chiado.

 

Capa do livro Satírica, incluído na colecção Pequeno Tesouro e publicado em Março de 1974.

 

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Autógrafos - Luís Filipe Rodrigues

blogdaruanove, 01.07.09

 

Luís Filipe Rodrigues (n. 1946), Dizer de Véspera (1983).

 

 

A maior e mais importante colecção editorial de poesia do século XX, Círculo de Poesia começou a publicar durante a década de 1980 os Prémios Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores.

 

A colecção iniciara-se com a publicação de Fidelidade (1958), de Jorge de Sena (1919-1978), e, entre os cento e quinze volumes editados durante os vinte e cinco anos decorridos até 1983, divulgara já obras de poetas tão significativos como Alexande O'Neill (1924-1986), António Ramos Rosa (n. 1924), Eugénio de Andrade (1923-2005), Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Ruy Belo (1933-1978) e Rui Knopfli (1932-1997), entre muitos outros, não menos significativos.

 

A presente obra de Luís Filipe Rodrigues foi premiada com o Prémio de Revelação de poesia da APE para 1982. A sina que parece envolver todos os autores galardoados com prémios de revelação de poesia não deixou de ser cumprida, pelo que se lhe seguiram apenas dois outros livros – Meses Navegáveis (1988) e Água Principal (1990).

 

Dizer de Véspera reúne poemas sobre o amor e os actos da criação e da  escrita, numa reflexão muito pessoal sobre  a sua génese. Transcreve-se de seguida um dos poemas desse volume:

 

  "DIZER À DISTÂNCIA

 

   Embora as coisas ditas ainda estejam tão por dizer

   nesta sempre espera de que a água se reproduza toda

   no exacto sítio onde a nossa memória se afundou

   é tempo de prevermos os aquedutos e a distância

   que nos separa das quedas de água

   de alcácer-quibir.

   Como esta caneta se vem preparando

   para o florescimento da circum-navegação.

   Como das muitas mágoas ao anoitecer o desejo é tardio

   para nos iludir e os semáforos escassos

   para tais embarcações suspensas. Embora

   com uma carpete de lume no corpo se segure a ilusão

   de que é possível o impossível, bem como

   das grandes neves surgir a chama branca

   esse inesperado anjo de água

   capaz de dizer a ilha onde estamos."

 

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Autógrafos - César Pratas

blogdaruanove, 17.06.09

 

César Pratas (n. 1936), Post Scriptum (1963).

Capa de João da Câmara Leme (1930-1983).

 

 

Habitualmente, os prémios de poesia revelam autores ignorados que, a seguir à distinção, regressam na sua maioria ao anonimato ou se remetem ao silêncio literário.

 

O mesmo sucedeu no caso de César Pratas. Com Post Scriptum recebeu o Prémio Revelação da Sociedade Portuguesa de Escritores para 1962. Antes, havia apenas publicado a colectânea Antemanhã (1962), a qual foi novamente republicada e aumentada no presente volume. Posteriormente, veio a publicar unicamente o volume Sismógrafo (1969).

 

Transcrevem-se três poemas, respectivamente de Post Scriptum, os dois primeiros, e de Antemanhã:

 

Poema I

 

1

se 2 + 2

fossem apenas 2 + 2

e não 4

se cada coisa

valesse apenas

como coisa em si

sem outro significado

que o seu próprio significado

 

(...)

 

6

mas cada coisa

tem um significado

presente e ausente

 

para lá das mãos

há sempre um gesto

que não é o nosso

 

há sempre

um horizonte visual

uma continuação do fim

para que nascemos

 

Poemas de Amor

 

Poema IV

 

corro a mão pelo vértice dos dias

nesta reza vertical de imaginar-te

 

defino-te palavra mais recente

sem sílabas

vogais ou consoantes

 

uma lágrima de lodo

um pássaro à deriva

 

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Autógrafos - Ana Marques Gastão

blogdaruanove, 11.02.09

 

Ana Marques Gastão (n. 1962), Terra sem Mãe (2001).

 

 

Afirmando-se essencialmente como poetisa, Ana Marques Gastão publicou, para além desta obra, os volumes Tempo de morrer, Tempo para viver (1998), Nocturnos: Canções com Palavras (2002), A Definição da Noite (2003), e Nós-Nudos: 25 Poemas sobre 25 Obras de Paula Rego (2004).

 

Na mesma época em que se publicou Terra sem Mãe, surgiram também duas obras em prosa, de autores de geração posterior, Morreste-me (2000), de José Luís Peixoto (n. 1974), e Este é o Meu Corpo (2001), de Filipa Melo (n. 1972), motivadas pelo mesmo referente – a perda de um ente querido.

 

Partindo desse referente, Ana Marques Gastão ensaia um rito de passagem, procurando renascer para um mundo diferente, onde a palavra mãe remete apenas para a memória de emoções que, através de uma catarse, são transformadas, recriando uma nova ordem interior e um novo discurso do sujeito poético.

 

Da obra, reproduz-se um breve poema:

 

  "Sou o silêncio que ficou

   uma cidade igual às outras

   onde os gritos se esvaem

   e a tua morte se tornou minha.

 

   Em tuas asas

   quebradas

   tudo se desintegra

   menos a memória."

 

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