Rua Onze . Blog

Maio 29 2009

Capa de Cipriano Dourado (1921-1981).

 

Manuel Lopes (1907-2005), O Galo [Que] Cantou na Baía... (1959).

 

Do conto As Férias do Eduardinho transcrevem-se dois parágrafos:

 

"Em frente do muro, num pequeno rectângulo de terreno com escassa dúzia de regos de pouca largura, pés de mandioca entrecruzam os longos pecíolos tesos em cujas extremidades os limbos parecem mãos espalmadas. Para lá do último rego, o mandiocal transborda e desce rúpidamente [sic] pela ladeira íngreme, de socalco em socalco, até um pequeno bosque de cafeeiros. Sobre as copas dos cafeeiros a vista ganha distância. As árvores, as casas, os polígonos verdes dos regadios formam quadros em miniatura espalhados ao acaso. As "chãs" de plantio, os "tapumes" de pastagem rala, sucedem-se, como gigantescos tombadilhos de navios dispostos lado a lado e irrompendo das montanhas com as proas dirigidas para  saída do vale, a leste da ilha.

Corgos profundos cortados a pique, com rebanhos de figueiras bravas ao longo do leito, separam as chãs, como vagas revoltas dum verde esbranquiçado. Dum lado e do outro, nos terrenos ladeirentos, socalcos de cana sacarina, bananeiras e feijoeiros congo. Aqui e ali, a esmo, tufos de verdura viva, manchas brancas de lapili pomítico, oásis de árvores frondosas, laranjeiras e manqueiras [sic] espalhadas como marcos; colinas contorcionadas e estéreis de arestas ásperas e nuas, grandes manchas de terra queimada, esquadrões de monólitos graníticos irrompendo do solo em posturas de monstros pensativos, surpreendidos pela erosão. A servir de pano de fundo, ora por cima das linhas das colinas, ora caindo a prumo sobre os últimos tapumes, a cordilheira circular, à direita e à esquerda, com os altos cumes rendilhados, a perder de vista."

 

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Março 06 2009


Fevereiro 20 2009

 

Capa de Marcelino Vespeira (1925 -2002).

 

Manuel Lopes (1907-2005), Os Flagelados do Vento Leste (1960).

 

Manuel Lopes já tratara a temática da fome no seu anterior romance, Chuva Braba (1956; cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/5807.html). É contudo em Os Flagelados do Vento Leste que desenvolve um intenso cenário de desolação, o qual promove o desespero e a degradação humana.

 

Em páginas sofridas e cheias de tensão, o leitor assiste ao desenvolver de uma narrativa marcada por um neo-realismo de carácter insular, que em parte evoca alguma da ficção de temática nordestina do autor brasileiro Graciliano Ramos (1892-1953).

 

José da Cruz, lavrador, e um dos seus filhos, Leandro, pastor transformado em salteador, são as personagens nucleares de duas narrativas que se entrecruzam, traduzindo a impotência dos habitantes da ilha de Santo Antão perante a força dos elementos.

 

Da narrativa transcrevem-se dois excertos:

 

   "Aquela tira de carrapato era sinal de trabalho, símbolo de emancipação, na ideia do rapaz. Significava que nele se estava operando a passagem de menino para homem. Na verdade, era o começo da escravização do menino pela terra, sob o disfarce tentador da responsabilidade de homem. Todo o catraio que ajuda o pai no tráfego sério das hortas sente grandeza em ser tratado de igual para igual e em trazer aquele distintivo. Os homens usavam, naturalmente, o cinto para suster as calças, mas também para enfiar a faca. O pai tinha um lato de coiro e um cartuchinho também de coiro – a bainha – para guardar a faca. Os meninos sonham com a bainha de cabedal, emblema de responsabilidade. "Uá! Tu não tens uma faca como eu. Foi nha-pai que deu para eu ajudar ele nos mandados da horta". Então, às escondidas, já picam tabaco de rolo com a faca, e enrolam o seu cigarrinho na palha de milho. Depois enfiam o calção de dril azul ou cotim ou vichi para esconder a vergonha e andarem mais afoitos no meio de raparigas. E aprendem a limpar o suor com as costas das mãos –a princípio por puro espírito de imitação – quando, no fim do dia, empunhando o rabo da enxada, regressam ao terreiro da casa atrás do chefe de família. Porque infância de menino de campo é isto: trocar as mamas da mãe pelo cabo da enxada do pai. Porque o homem do campo não teve infância. Teve luta só, e luta braba. E esperanças e incertezas; a labuta das águas e o drama da estiagem marcados nas faces chupadas e no olhar sério. [p.52]"

 

 

   "Era a luta. A luta braba que começava. Contra os elementos negativos. Contra os inimigos do homem. A luta silenciosa, de vida ou de morte. Introduzia-se primeiro no entendimento. Depois, entrava no sangue e no peito. O homem tornava-se a força contrária às forças da Natureza. Por um mandato de Deus, o homem lutava contra os próprios desígnios de Deus. Dava toda a vontade e a sua força. Não podia fazer mais nada. O que está acima da força do homem não pertence aos seus domínios. O homem tinha uma medida. Chuva, vento e sol estavam fora dessa medida, e o homem não se podia incriminar  pelo que sucedia fora da sua medida. Os desígnios de Deus eram superiores à vontade dos homens, mas o dever do homem era lutar mesmo contra esses desígnios. [p. 96]"

 

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