Rua Onze . Blog

Dezembro 25 2009

 

PONTE ROMANA e Edificio das "Aguas Romanas" [Pedras Salgadas]

Bilhete postal circulado do Porto para Belas, em Fevereiro de 1945.

Edição de [Empresa das ?] Aguas Romanas.

 

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publicado por blogdaruanove às 19:00

Setembro 18 2009

Capa e ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957).

 

Ferreira da Costa (1907-1974), Pedra do Feitiço (1945).

 

Com este volume, Ferreira da Costa complementa as narrativas que tinha apresentado em Na Pista do Marfim e da Morte (Cf. http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/24884.html), obra que fora publicada um ano antes e constituíra um imediato sucesso de vendas, com várias edições num só ano. Fenómeno que também se verificou com este livro.

 

Compilando neste volume quatro longas narrativas  - A Última Caçada de um Príncipe Negro, O Testamento do "Papa-Rôlas", A Bebedeira Verde e Adeus, irmão! Até um dia!, que mais poderão ser qualificadas como novelas do que como contos, o autor apresenta-se-nos com um narrador exímio mas é na descrição do despertar da terra africana a seguir às chuvas, apresentada em A Bebedeira Verde, que nos oferece um notável momento literário.

 

Transcrevem-se, de seguida, um excerto do prólogo à obra e um trecho da referida descrição:

 

"Prosseguindo  e concluindo as reportagens vividas que constituíram o volume intitulado 'Na Pista do Marfim e da Morte', êste livro encerra os episódios finais da minha vida nos sertões da África Ocidental.

 

Já morreram as maiores personagens das narrativas que ides ler. Mai-Kingombe, José Queiroz, Ricardo e 'Branco Grande' encetaram, há muito, a mais enigmática das aventuras; Raul de Oliveira também partiu para aquêle singular país onde, segundo a lírica visão de Tagore, ' não há noites nem dias, e os cânticos são silenciosos.' No entanto, ao escrever os capítulos que aí vão, pressenti as suas presenças. Eram sombras que rondavam nas minhas reminiscências, sugerindo-me conselhos, a explicarem-me cenas que, outrora, me parecerem inexpressivas. E pensei que lhes ofenderia grosseiramente as memórias, se juntasse à substância de acontecimentos reais – gravados na minha carne e no meu espírito – pormenores ditados pela imaginação. Demais, para que seria necessário recorrer a tanto? Para quê, meu Deus, se ainda reservo ciosamente, até não sei quando, as confidências cruéis de 'Branco Grande' – funante heróico – e a confissão pungente de Ricardo – o misterioso português acicatado pelo remorso?

 

Comovidamente meditado, somatório de recordações fiéis, êste volume nem sequer no título obedece a capricho ocasional ou preferência de eufonia. A Pedra do Feitiço existe. Fica distante de Santo António do Zaire, quási em frente de Boma. É um morro pedregoso, agreste e nu. Triste. Sinistro, por vezes. Assenta no limite de savanas bravias, onde as tsé-tsé instilam venenos letais, os carnívoros despedaçam corças e todos os brutos urram de ansiedades frenéticas, nos contactos da procriação. Para lá da colina rochosa, desliza o grande rio majestoso – o Zaire. O calor martiriza. Entontece. Leva ao desvario. Nem réstea de sombra, para lenitivo de tamanho tormento. Em tôrno, não se vislumbram sinais de vida humana. Paira um silêncio trágico, primitivo, só atenuado, ao descer a noite, pelo resfolegar dos hipopótamos e os gritos estridentes dos abutres. Chega-nos o cheiro nauseabundo da carne podre – carcassas sanguinolentas, restos dos festins nocturnos das panteras e dos chacais. Na margem, entre limos e juncos, brilha o olhar vítreo dos jacarés.

 

Penedos musgosos, carne morta ou chicoteada pelos instintos primários, ranger de queixadas que devoram, exalações de venenos dispersos nas ervagens ou suspensos nos ferrões dos insectos, goelas famintas esperando vítimas na beira-rio, coisas que apodrecem numa fermentação borbulhante que faz mêdo... Calor. Mudez. Ninguém. É  assim a Pedra do Feitiço."

 

 

Ferreira da Costa declara não ter juntado "à substância dos acontecimentos reais pormenores ditados pela imaginação". De facto, tal declaração é irrelevante para a classificação destes como textos literários. Com ou sem imaginação, as narrativas são claramente literárias e as descrições aproximam-se das melhores e mais intensas que se podem encontrar, em língua portuguesa, sobre África:

 

"Um dia, quási a mêdo, o sol descobre a face. Então, se o homem branco penetra na selva, estremece e fica atónito de espanto, confusamente amedrontado. Olha e nada reconhece. Sumiram-se as feições dormentes do estio. A païsagem transfigurou-se. O mato despertou, em frenéticos sobressaltos. E a transmutação entontece, desorienta, enche-nos de enleios singulares. A colinas pardacentas surgem-nos verde-oliváceas. Uma rocha côr de bronze aparece-nos esmeraldina. Há esferas de malaquite onde víramos pedregulhos negros e agudos. Já não existem os cerros ásperos, os penhascais, as penedias sôltas. A selva cresceu, agigantou-se, expandiu-se numa extravasão vertiginosa de seivas; transpôs todos os obstáculos com ímpeto silencioso e feroz. Largas 'picadas' feitas pelos europeus, trilhos gentílicos, tugúrios de caçadores mussorongos, arimos de ginguba, clareiras tisnadas pelo fogo, tudo foi reconquistado pelas vegetações em delírio. Não há brechas, nem veredas. Há muralhas de trepadeiras, de ramúsculos e rebentões; tôrres de folhagens escamulosas, sebes eriçadas de mucrões e acúleos, pêlos rijos como cordas, ramos cortantes como punhais. Corriolas corpulentas marinham até o cocoruto das árvores maiores, enrolam-se, multiplicam os braços, desfiguram os perfis graciosos das palmeiras, os caules raquíticos das matebas, os corpanzis das acácias rubras. O capim avança por cima dos ramos coriscados. Reverdecem estolhos e arbustos, à beira dos gigantes vencidos pelo raio e pelo vendaval. Abrem-se corolas de pesadelo, na berma dos paúis borbulhantes de sapos. Há um fermentar rechinante de coisas pútridas. Adivinham-se as sucções gulosas das humícolas, sorvendo vida na podridão dos lenhos mortos. Sentem-se os frémitos da antese, as vibrações do labor espérmico.

 

Os charcos transformaram-se em lagos; os riachos alastram pelas redondezas e não permitem passagem. Envolve-nos uma luminosidade espectral, lívida e baça. Ficam verdes os rostos e as vestimentas. É verde o bafo que nos sai da bôca. Das penumbras, vêm rumores indistintos. Rangem troncos, na gestação de rebentos; remexem fôlhas, ajeitando-se para maior crescimento; gemem os ramitos novos, para alcançarem alturas onde brilha o Sol. Movimentos furtivos agitam as pedras vestidas de líquenes. Súbitos estremecimentos deslocam a crosta do solo empapado de água. Estalidos, roçagares farfalhantes, silvos inexplicáveis... Os fungos estoiram e abrem bôcas. Rolam troços de  cascas roídas pelas salalé. Despenham-se troncarias velhas, rendidas ao pêso dos cipós. E a neblina virente que nos envolve esbate contornos, esfuma perfis, empresta às coisas e às criaturas assustadas feições de fantasmas. Temos a perturbadora impressão de penetrar num planeta diferente. Compreendemos – mais ìntimammente do que nunca – palpitarem à nossa volta fôrças monstruosas."

 

 

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publicado por blogdaruanove às 17:36

Agosto 21 2009

 

Fausto Duarte (1903-1953), Foram Êstes os Vencidos (1945).

 

Com este volume de contos Fausto Duarte demonstra a sua versatilidade narrativa, afastando-se da imagem de escritor de temática exclusivamente colonial que o sucesso da novela Auá (1934; cf. http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/114486.html) tinha criado.

 

De facto, das sete narrativas apresentadas apenas quatro – Os Degredados, O Mestiço, O Gomil de Prata e Regresso, decorrem em África, concretamente na Guiné, os três últimos, e nas costas subtropicais o primeiro.

 

Os restantes três contos têm uma localização espacial dispersa – Evamaria na Alemanha, Renúncia algures no oceano e em Inglaterra e Ressurreição em Portugal.

publicado por blogdaruanove às 23:52

Junho 24 2009

 

Natércia Freire (1919-2004), A Alma da Velha Casa (1945).

Capa de Inês Guerreiro (datas desconhecidas).

 

 

Tendo publicado anteriormente dois volumes de poesia, Estátua (1941) e Horizonte Fechado (1943), conforme anunciado no presente volume (embora a BNP registe em 1939 a obra Meu Caminho de Luz), Natércia Freire veio a receber em 1971 o Prémio Nacional de Poesia, ex-aequo com David Mourão-Ferreira (1927-1996), pela sua obra Os Intrusos, mas já em 1955 havia recebido o Prémio Ricardo Malheiros pela obra em prosa Infância de Que Nasci.

 

Este seu volume de contos, A Alma da Velha Casa, trata recorrentemente da perda, da morte e da solidão, com um acento tónico da narrativa e das personagens na sofredora visão feminina do mundo.

 

De entre esses contos, salienta-se A Preta, como a única narrativa onde surgem a felicidade, a alegria e a esperança, que nem sempre são características da infância na obra da autora, como se comprova em Perdi Alma. Mas é em contos como O Regresso Dela que se testemunha a concepção literária de Natércia Freire para um mundo de personagens inexoravelmente condenadas ao sofrimento e à amargura.

 

Deste último conto transcreve-se um breve excerto:

 

"Viera sentar-se no banco rangente de pinho, com a melhor saia preta de sarja que comprara na loja do senhor Matias, o seu melhor chaile prêto, o seu melhor lenço de cabeça, os seus melhores sapatos, abotoados com uma grande fivela niquelada, tudo ainda do tempo dêle, sòmente com a diferença de que, no tempo dêle, ela nunca vestira aquela roupa conjuntamente. Viera sentar-se ali, à frente da casa, com as paredes brancas detrás de si, tarjadas de prêto como o lenço a que enxugava as lágrimas amargas, e os carris de ferro, brilhantes do sol e saltitantes da luz, à sua frente. Havia, para lá do muro que limitava a linha e mesmo de cara para casa, uma enorme mata de carvalhos umbrosos e de eucaliptos, de cheiro acre, onde os lenhadores passavam os dias a cortar toros, na sua cantilena lúgubre de vida que tomba. E, se calhava alguém passar de perto, rente ao muro e do lado da linha, quando ameçava cair derrubada à fúria dos machados alguma árvore condenada, o estilo e a frase eram sempre os mesmos, arrastados e melancólicos, a encher de receios e ritmos tristes aquela solidão:

– Ó de lá, ó da mata... Vai gente..."

 

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publicado por blogdaruanove às 17:51

Fevereiro 05 2009

 

 

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publicado por blogdaruanove às 17:04

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