Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Rua Onze . Blog

Aki ó-matsu Hito ó-mayowasu Momiji-kana!...

Rua Onze . Blog

Aki ó-matsu Hito ó-mayowasu Momiji-kana!...

Autógrafos - Mendes de Carvalho

blogdaruanove, 08.07.09

 

Mendes de Carvalho (1925-1988), Camaleões e Altifalantes (1963).

 

 

Com esta colectânea, Mendes de Carvalho surge como um poeta iconoclasta e desassombrado, recuperando muito do que de contestatário e anarquista poderia ter havido num surrealismo menos onírico.

 

Aspecto significativo, no entanto, é o facto de a sua poesia recusar qualquer afastamento dadaísta ou surrealista da realidade, característica daqueles movimentos da década de 1910 e 1920 e do tardio sucedâneo surrealista português, e reflectir uma auto-ironia sobre a criação literária do poeta, que acaba por denunciar o próprio (d)enunciante.

 

Anteriormente, Mendes de Carvalho havia publicado os volumes de poesia Timbre (1948) e A Voz e o Círculo (1955), o volume de teatro A Comédia e a Rua (1958) e o volume de contos O Rei de Montoyya (1960), mas este livro é que veio introduzir o seu período mais significativo e personalizado, que continuou em Cantigas de Amor & Maldizer (1966), Satírica (1974) e Poemas de Ponta & Mola (1975).

 

Mendes de Carvalho publicou ainda A 10.ª Turista (1972) e a peça infantil Aventuras de Animais e Outros Que Tais (1982; em co-autoria com Orlando Neves [1935-2005]). Postumamente, numa homenagem que pretendeu recuperar a singularidade da sua poesia, publicou-se o volume Noite Branca: Poesia (1994), com apresentação de Urbano Tavares Rodrigues (n. 1923), um estudo de Fernando Grade (n. 1943) e ilustrações de Álvaro Infante do Carmo (datas desconhecidas).

 

De Camaleões e Altifalantes transcrevem-se dois poemas:

 

   LUGAR

 

   O sol no asfalto queima

   uma velha cabeceia à soleira da porta

   a magnólia abre sonhos brancos

   inúteis

   a vila parece longínqua

   morta.

 

   Apenas um pássaro canta

   esquecido dos caçadores.

 

   DENÚNCIA

 

   Denuncio a máquina de fabricar tristeza

   denuncio os assassinos da paisagem

   o verso e o reverso das escritas secretas

   as organizações da angústia nocturna

   os que precisam de criada para todo o serviço

   e para uso próprio do menino da casa

   os investigadores puristas da moral alheia

   a oferta de flores injectadas de veneno

   os que escrevem cartas de recomendação

   os que apunhalam reputações com risos a três quartos

   os que recebem à linha para dizer bem ou mal

   os que têm a sua religião para as ocasiões

   os segregacionistas das little rock

   o santo e a senha de todos os lados

   os fabricantes de morfina com nomes potáveis

   a poética dolorosa de conversa fiada

   e [sic] arame farpado camuflado em fitas de inauguração

   os que têm coração apenas para as setenta pulsações

   denuncio os denunciantes.

 

 

Na autobiografia publicada em Satírica, Mendes de Carvalho escreveu:

 

" (...) Chateado com muitas coisas (algumas secretas), começou a fazer poesia de canino aguçado e publicou 'Camaleões e Altifalantes'. A editora era muito importante. Os críticos leram e, de um dia para o outro, acordou (também) importante. Ficou muito contentinho. Na mesma editora (o livro vendeu-se bem), saiu, três anos mais tarde, 'Cantigas de Amor & Maldizer'. Os críticos confirmaram que sim senhor e alguns falaram da sua família poética, uns tipos famosos. Como nesse tempo usava barba, afagou-a muito, muito compenetrado. Mais ou menos por essa altura, co-dirigiu uma revista de artes e letras, que teve pouca duração (para não fugir ao costume). Em 1972 (na maturidade), publicou 'A 10.ª Turista', peça muito discutida (é assim que é hábito dizer-se), mas não representada (é assim que é hábito fazer-se).

 

Se o leitor chegar até ao poema 'Antibiografia em trânsito', verificará que o autor é contra as biografias, especialmente as de pequeno curso, de navegação costeira. Dá-lhe vontade de rir (quando lê) o elasticizar do biógrafo a falar do biografado, a meter-se na sua vida, simpaticamente quando a 'celebridade' ainda anda por cá. (...) "

 

Note-se que no volume Camaleões & Altifalantes reproduzido, que pertenceu ao escritor, académico e crítico literário Luís Forjaz Trigueiros (1915-2000), se encontra assinalado o poema Chiado.

 

Capa do livro Satírica, incluído na colecção Pequeno Tesouro e publicado em Março de 1974.

 

© Rua Onze . Blog

Autógrafos - Luís Filipe Rodrigues

blogdaruanove, 01.07.09

 

Luís Filipe Rodrigues (n. 1946), Dizer de Véspera (1983).

 

 

A maior e mais importante colecção editorial de poesia do século XX, Círculo de Poesia começou a publicar durante a década de 1980 os Prémios Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores.

 

A colecção iniciara-se com a publicação de Fidelidade (1958), de Jorge de Sena (1919-1978), e, entre os cento e quinze volumes editados durante os vinte e cinco anos decorridos até 1983, divulgara já obras de poetas tão significativos como Alexande O'Neill (1924-1986), António Ramos Rosa (n. 1924), Eugénio de Andrade (1923-2005), Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Ruy Belo (1933-1978) e Rui Knopfli (1932-1997), entre muitos outros, não menos significativos.

 

A presente obra de Luís Filipe Rodrigues foi premiada com o Prémio de Revelação de poesia da APE para 1982. A sina que parece envolver todos os autores galardoados com prémios de revelação de poesia não deixou de ser cumprida, pelo que se lhe seguiram apenas dois outros livros – Meses Navegáveis (1988) e Água Principal (1990).

 

Dizer de Véspera reúne poemas sobre o amor e os actos da criação e da  escrita, numa reflexão muito pessoal sobre  a sua génese. Transcreve-se de seguida um dos poemas desse volume:

 

  "DIZER À DISTÂNCIA

 

   Embora as coisas ditas ainda estejam tão por dizer

   nesta sempre espera de que a água se reproduza toda

   no exacto sítio onde a nossa memória se afundou

   é tempo de prevermos os aquedutos e a distância

   que nos separa das quedas de água

   de alcácer-quibir.

   Como esta caneta se vem preparando

   para o florescimento da circum-navegação.

   Como das muitas mágoas ao anoitecer o desejo é tardio

   para nos iludir e os semáforos escassos

   para tais embarcações suspensas. Embora

   com uma carpete de lume no corpo se segure a ilusão

   de que é possível o impossível, bem como

   das grandes neves surgir a chama branca

   esse inesperado anjo de água

   capaz de dizer a ilha onde estamos."

 

© Rua Onze . Blog

Autógrafos - Natércia Freire

blogdaruanove, 24.06.09

 

Natércia Freire (1919-2004), A Alma da Velha Casa (1945).

Capa de Inês Guerreiro (datas desconhecidas).

 

 

Tendo publicado anteriormente dois volumes de poesia, Estátua (1941) e Horizonte Fechado (1943), conforme anunciado no presente volume (embora a BNP registe em 1939 a obra Meu Caminho de Luz), Natércia Freire veio a receber em 1971 o Prémio Nacional de Poesia, ex-aequo com David Mourão-Ferreira (1927-1996), pela sua obra Os Intrusos, mas já em 1955 havia recebido o Prémio Ricardo Malheiros pela obra em prosa Infância de Que Nasci.

 

Este seu volume de contos, A Alma da Velha Casa, trata recorrentemente da perda, da morte e da solidão, com um acento tónico da narrativa e das personagens na sofredora visão feminina do mundo.

 

De entre esses contos, salienta-se A Preta, como a única narrativa onde surgem a felicidade, a alegria e a esperança, que nem sempre são características da infância na obra da autora, como se comprova em Perdi Alma. Mas é em contos como O Regresso Dela que se testemunha a concepção literária de Natércia Freire para um mundo de personagens inexoravelmente condenadas ao sofrimento e à amargura.

 

Deste último conto transcreve-se um breve excerto:

 

"Viera sentar-se no banco rangente de pinho, com a melhor saia preta de sarja que comprara na loja do senhor Matias, o seu melhor chaile prêto, o seu melhor lenço de cabeça, os seus melhores sapatos, abotoados com uma grande fivela niquelada, tudo ainda do tempo dêle, sòmente com a diferença de que, no tempo dêle, ela nunca vestira aquela roupa conjuntamente. Viera sentar-se ali, à frente da casa, com as paredes brancas detrás de si, tarjadas de prêto como o lenço a que enxugava as lágrimas amargas, e os carris de ferro, brilhantes do sol e saltitantes da luz, à sua frente. Havia, para lá do muro que limitava a linha e mesmo de cara para casa, uma enorme mata de carvalhos umbrosos e de eucaliptos, de cheiro acre, onde os lenhadores passavam os dias a cortar toros, na sua cantilena lúgubre de vida que tomba. E, se calhava alguém passar de perto, rente ao muro e do lado da linha, quando ameçava cair derrubada à fúria dos machados alguma árvore condenada, o estilo e a frase eram sempre os mesmos, arrastados e melancólicos, a encher de receios e ritmos tristes aquela solidão:

– Ó de lá, ó da mata... Vai gente..."

 

© Rua Onze . Blog

 

Autógrafos - César Pratas

blogdaruanove, 17.06.09

 

César Pratas (n. 1936), Post Scriptum (1963).

Capa de João da Câmara Leme (1930-1983).

 

 

Habitualmente, os prémios de poesia revelam autores ignorados que, a seguir à distinção, regressam na sua maioria ao anonimato ou se remetem ao silêncio literário.

 

O mesmo sucedeu no caso de César Pratas. Com Post Scriptum recebeu o Prémio Revelação da Sociedade Portuguesa de Escritores para 1962. Antes, havia apenas publicado a colectânea Antemanhã (1962), a qual foi novamente republicada e aumentada no presente volume. Posteriormente, veio a publicar unicamente o volume Sismógrafo (1969).

 

Transcrevem-se três poemas, respectivamente de Post Scriptum, os dois primeiros, e de Antemanhã:

 

Poema I

 

1

se 2 + 2

fossem apenas 2 + 2

e não 4

se cada coisa

valesse apenas

como coisa em si

sem outro significado

que o seu próprio significado

 

(...)

 

6

mas cada coisa

tem um significado

presente e ausente

 

para lá das mãos

há sempre um gesto

que não é o nosso

 

há sempre

um horizonte visual

uma continuação do fim

para que nascemos

 

Poemas de Amor

 

Poema IV

 

corro a mão pelo vértice dos dias

nesta reza vertical de imaginar-te

 

defino-te palavra mais recente

sem sílabas

vogais ou consoantes

 

uma lágrima de lodo

um pássaro à deriva

 

© Rua Onze . Blog

Autógrafos - Baptista-Bastos

blogdaruanove, 21.05.09

 

Baptista-Bastos (Armando Baptista-Bastos, n. 1934), Um Homem Parado no Inverno (1991).

 

 

Romance sobre a ausência e a incerteza, Um Homem Parado no Inverno retrata a reacção de uma personagem à morte da companheira de longa data, narrando as suas deslocações constantes entre Lisboa e uma pequena aldeia costeira.

 

Esta vivência pessoal do protagonista, Manuel, desenvolve-se num tempo de transição, que evoca o passado do Estado Novo, através do patriarca de uma família fidalga e abastada, os Magalhães, de quem Manuel é íntimo, e exemplifica a perplexidade perante o presente, o final dos anos oitenta, através dos numerosos descendentes do patriarca e da sua família disfuncional.

 

Este aspecto disfuncional da família e da própria personagem principal reflecte-se no discurso narrativo, o qual alterna entre um modelo tradicional e um modelo fragmentado que se torna contínuo através da ausência de pontuação.

 

Para uma pequena nota sobre outra obra de Baptista-Bastos, consulte: http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/221979.html. De Um Homem Parado no Inverno transcreve-se um pequeno parágrafo:

 

"Foi sabendo do holandês: esparsas notícias. A vida, na capital, complicara-se-lhe, o negócio de antiguidades não ia bem porque, nessa época, submetido a emoções de posse, apaixonava-se por objectos de que se não desfazia, embora encontrasse compradores interessados. Só muito espaçadamente ia à aldeia. As suas relações com os vizinhos e amigos eram então passageiras: pagava o que tinha a pagar, cumpria os rituais das cortesias, regressava a Lisboa ao anoitecer. Durante muito tempo fora indulgente para com as afectadas capacidades de preconizar, por quase todos os Magalhães manifestadas, antes de descobrir que eles não amavam as ideias. Não sou mais do que um velho adolescente, pensara, a quem foi revelado que esta gente é cheia de má-consciência e habitada pela mentira."

 

© Rua Onze . Blog

Autógrafos - César dos Santos

blogdaruanove, 13.05.09

 

 

César dos Santos (1907-1974), A Cidade das Mil Cores (1946).

Capa de Moura (datas desconhecidas).

 

 

Jornalista e escritor, César dos Santos (cf. outra nota acerca do autor em:  http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/147000.html) cultivou particular gosto pelas crónicas sobre Lisboa, seguindo a tradição de Os Gatos (1889-1894), de Fialho de Almeida (1857-1911), que, aliás, cita com frequência, e acompanhando a prática do jornalista e seu contemporâneo Norberto de Araújo (1889-1952).

 

Em A Cidade das Mil Cores, o cronista ora descreve características da Lisboa das décadas de 1930 e 1940, ora discorre sobre os refugiados de guerra, ora se debruça sobre o quotidiano de algumas personagens peculiares, como os rapazitos que afluem ao Jardim da Estrela, Careca, Zanaga e Calçudo, sem dinheiro para pagar a entrada e se divertirem nos baloiços e bicicletas do recinto vedado. 

 

Do texto que deu título ao volume, transcrevem-se três parágrafos:  

 

"Lisboa é uma dessas cidades sem pompas monumentais ou artifícios de decorações sumptuosas, a que bastam as sugestões dos aspectos bizarros, o inédito de certos detalhes no conjunto magnífico dos seus dons naturais para as tornar bonitas e eternamente lembradas dos que, algum dia, se deliciaram a contemplá-las num olhar enternecido.

O que glorifica a nossa cidade e a torna apetecida é a profunda transparência do azul luminoso destes céus claros e tranquilos, a radiante alegria das meigas e doces claridades que esmaltam perspectivas jubilosas no cenário incomparável, a alada sinfonia de cores que alastra, como música visual, na translúcida placidez da atmosfera – é este Sol triunfal que faz remoçar a velha Lisboa, todas as manhãs, quando ela acorda numa gargalhada cristalina que se estilhaça no ar em vibrações sonoras, num coro aturdido de gritos, pregões e cantigas.

Essa orgia de luz, quando as colinas parece que escorrem oiro e rosários de pérolas vão a desfiar-se no torvelinho da branda ondulação do Tejo; esse deslumbramento de preciosas claridades, incidindo como ribalta descomunal no cenário imponente em que a prodigalidade do colorido exulta e ressalta na infinita gama de tons sobre as fachadas faiscando ao sol, inspiraram a um artista com alma de poeta esta soberba definição de Lisboa – a cidade das mil cores."

 

© Rua Onze . Blog

Autógrafos - Antunes da Silva

blogdaruanove, 06.05.09

 

Antunes da Silva (1921-1997), Canções do Vento (1957).

 

 

Essencialmente consagrado como prosador, Antunes da Silva (cf. http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/15899.html) desenvolveu também uma obra lírica no contexto do movimento neo-realista. Publicou em 1952 Esta Terra que é Nossa: Poemas e quarenta anos depois Breve Antologia Poética. De permeio, saíu esta separata do Cancioneiro Geral, intitulada Canções do Vento.

 

Deste volume transcreve-se um breve poema sem qualquer conotação neo-realista, Primavera, e um outro, Terceira Cantiga, claramente ligado à contestação social e política característica desse movimento literário:

 

PRIMAVERA

 

A Primavera nasceu

Enfeitada pelo sono das plantas

E o sussurro das fontes,

Onde as abelhas foram flores

A poisarem nas estrelas dos horizontes.

 

Oiço a Primavera no vento,

Entre azinhagas e montes.

 

 

TERCEIRA CANTIGA

 

Ao Alves Redol

 

Passei no Tejo à noitinha

E vi o Tejo calado.

Trago um barco de papel

Para o deitar no mar salgado.

Quando o barco se romper,

Deito no Tejo uma estrela.

E a estrela branca lá fica

E nunca mais torno a vê-la...

Que nas águas deste rio

Parte gente pró degredo...

O povo vive e não morre,

Mesmo cercado de medo!

 

© Rua Onze . Blog

Autógrafos - Antunes da Silva

blogdaruanove, 11.03.09

 

Antunes da Silva (1921-1997), Sam Jacinto (1950).

Capa de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957).

 

 

Escritor cuja obra se insere no movimento neo-realista, Antunes da Silva abordou muitas das temáticas recorrentes nessa literatura – a luta de classes, a solidão, a desolação e o desamparo, a miséria e o sofrimento dos trabalhadores.

 

De entre as suas inúmeras obras, as mais conhecidas serão as primeiras colectâneas de contos, Gaimirra (1946), Vila Adormecida (1947; cf. a belíssima capa em http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/166278.html), e esta Sam Jacinto, bem como a novela Suão (1960).

 

Para além de prosador, Antunes da Silva foi também poeta e em breve será aqui referido um dos seus primeiros livros de poesia, Canções do Vento (1957).

 

Do conto A Fuga, incluído em Sam Jacinto, transcrevem-se dois parágrafos:

 

"É doloroso dizê-lo, mas é assim. A vila, por muito que se tente, por muito que certos homens se esforcem por erguê-la à sua antiga condição – nem reage. Existe, entre os seus habitantes, um medo da vida, aquilo que o sr. Florentino disse, e muito bem, "ser a tragédia de um povo que perdeu o espírito de iniciativa e a voluntária vontade de lutar..." Almas fracas, influídas pela crise, deram em beber e faltar ao respeito às pessoas de vergonha. As raparigas, nos bailes, aceitam namoro a dois e três rapazes ao mesmo tempo. Os arrendatários de terras, esmorecidos nos seus cometimentos, ficam horas e horas cismando, à espera de milagres que nunca mais vêm...

A vila mudou. Tem outros vícios e menos virtudes... Afaga-se ao passado, ao prestígio de meia dúzia de cidadãos que mantêm intactos os corações puros e virgens da passada mocidade. Os homens que nascem e crescem têm medo da vida. E com esse medo da vida, os homens que nascem e crescem nas planícies tornam-se agora menos solidários e mais hostis. Qualquer menina namora até altas horas e já nem os pais se conseguem fazer obedecer... Ou os pais deixam passar o tempo, ansiosos, à espera que as filhas tenham um lugar de futuro ao sol do mundo, casando com qualquer estanislau..."

 

© Rua Onze . Blog

Autógrafos - Luís Filipe de Castro Mendes

blogdaruanove, 04.03.09

 

Luís Filipe de Castro Mendes (n. 1950), Correspondência Secreta (1995).

 

 

A bibliografia de Castro Mendes iniciou-se em 1983 com a publicação de Recados. Seguiram-se-lhe Seis Elegias e Outros Poemas (1985), A Ilha dos Mortos (1991), Viagem de Inverno (1993), O Jogo de Fazer Versos (1994), a presente obra, Modos de Música (1996), Outras Canções (1998), Poesia Reunida (1985-1999) e Os Amantes Obscuros (1999) e Os Dias Inventados (2001).

A predilecção do autor pela poesia torna-se evidente em Correspondência Secreta, obra que articula monólogos, poesia e prosa epistolar, toda ela ficcional, numa mundividência supostamente setecentista. Embora surjam ao longo do texto algumas citações de correspondência e literatura da época, o seu núcleo desenvolve-se ao longo de um eixo narrativo paralelo à realidade do século XVIII, como se os leitores fossem colocados perante plausíveis realidades alternativas.

Personagens históricas como o Cavaleiro de Oliveira e a Marquesa de Alorna são reconstruídas ao longo do enredo, criando uma imagem da realidade que não foi mas poderia ter sido.

 

 

Dos diversos monólogos que ocorrem ao longo da obra, transcreve-se o seguinte:

 

"Monólogo em que D. João Carlos de Bragança, duque de Lafões, continua a discorrer sobre amores com castrados e cantoras (1782)

 

   Dos lutos mais fortes não falamos; dos homens que viveram o terremoto de 1755 dificilmente colhemos o testemunho do que sofreram. Encontrei nas minhas andanças pelo mundo muitos relatos, poemas e reflexões acerca do funesto acontecimento, mas pouco ou nada escrito por portugueses. Recordo-me bem de andar com meu irmão a vistoriar estragos e ruínas; quando passámos pelos restos carbonizados da Ópera do Tejo, lembrei-me de Gaetano e dos cantores e fui imediatamente procurá-los. Tinham partido nessa mesma noite, enlouquecidos de pavor,e só pararam de fugir em Madrid, onde, como me escrevia um amigo inglês, your musicians came tumbling in naked upon us everyday. Quando voltei a encontrar Guadagni em Londres, ele contou-me que o horroroso espectáculo lhe tinha causado tão grande terror que decidira retirar-se para um convento com o castrado Gizziello, a fim de ambos se redimirem dos seus muitos pecados. Mas Guadagni, sempre motivado para o aperfeiçoamento da sua arte, acabara por tirar o maior partido dos ensinamentos que nesse retiro lhe ministrou o Gizziello e na temporada seguinte os dois pecadores voltaram aos palcos, para perdição das suas almas e deleite de todos nós.

   Voltei, pois, a encontrar Gaetano Guadagni em Londres, andava eu a aprender as leis da Natureza na Royal Society e ele, que estudara a arte de representar com o actor Garrick, sabia explicar-me que o cantor deve ser mais do que uma voz a sair de um corpo inerte: ele põe emm cena as paixões, como o faz o actor no teatro declamado, e convém por isso que conheça ambas as artes. Passeávamos os dois por Londres e recuperávamos uma familiaridade singular, já longe dos corpos e dos desejos. Entendi então o mundo dos castrados, suas guerras e caprichos, ternuras e alianças; e esse conhecimento (sei-o hoje) foi-me amadurecendo a pouco e pouco para maiores transformações.

   Ao contrário, todo o meu diálogo com Marianne Bianchi foi sendo contaminado pelo desejo, ao ponto de as minhas ideias acabarem por se perder na obsessão de a tocar e possuir. Mas isso sucedia também por eu sentir quanto Marianne infinitamente me escapava, não por jogo de esquiva ou banal sedução, mas porque uma natureza tão errante e fugitiva apenas à sua arte se podia dar inteira. Como não há-de amar tudo quanto lhe foge quem ama a vida como eu? Por isto não me causou surpresa que, regressando a desoras do palácio Tarouca, visse ter jápartido para sempre a minha amada, deixando-me naquela estalagem como única lembrança um poema que ela própria compusera sobre o tema de Dido abandonada."

 

 

© Rua Onze . Blog

Autógrafos - Urbano Tavares Rodrigues

blogdaruanove, 18.02.09

 

 

Urbano Tavares Rodrigues (n. 1923), Desta Água Beberei (1979).

 

 

Assumindo-se desde sempre como um escritor cuja obra reflecte a sua ideologia de esquerda, no início da sua produção ficcional Urbano Tavares Rodrigues assumiu também parte da herança neo-realista . De entre os inúmeros romances produzidos até hoje, Bastardos do Sol (1959) será certamente um dos mais conhecidos.

 

No campo do ensaio, por entre a diversidade temática da sua escrita, sobressai uma especial atenção dedicada à obra de Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), particularmente através dos ensaios Manuel Teixeira Gomes: Introdução ao Estudo da sua Obra (1950) e Manuel Teixeira-Gomes: O Discurso do Desejo (1984).

 

A temática da sua produção ficcional oscila com frequência entre as experiências urbanas e as experiências rurais das suas personagens, como acontece em Desta Água Beberei.

 

Desenvolvendo-se em curtos capítulos, de uma forma quase fragmentária, este romance apresenta um enredo cuja acção decorre em 1976 e 1977 e retrata o período de transição pós-revolucionária. A narrativa cruza aspectos próximos da crónica, do diário e do registo epistolar, orientando-se pela verosimilhança da contextualização histórica e pelo constante recurso à evocação de personagens reais, da política, da literatura e de diversas outras áreas, e de acontecimentos reais como forma de inserir a História na história.

 

Exemplos disto mesmo, o discurso narrativo e os diálogos das personagens desenvolvem-se através da recorrente insistência a siglas vulgarizadas durante o PREC (Período Revolucionário em Curso...), entre as quais algumas já esquecidas pelas subsequentes gerações e entretanto caídas em desuso – CAP, CIA, CDS, CGTP, CRRA, FMI, IARN, IRA, MAP, MFA, MES, PIDE, PPD, PS, RALIS, UCP, UEDS, URAP...

 

Reflectindo um certo desencanto pós-revolucionário, que vai degenerando numa atitude "Português Suave" de algumas personagens, a sensação fragmentária da narrativa reflecte também a consciência da impossibilidade de materializar uma revolução em termos utópicos.

 

 

© Rua Onze. Blog