Rua Onze . Blog

Março 20 2009

 

"O palacio do sr. Milhões, construido á beira da estrada, entre Pizões e Setiaes, é todo em pedra rendilhada, duma alvura que contrasta desagradavelmente com o verde nuancé do arvoredo que o cerca, dum preciosismo arquitectonico que repugna á magestosa severidade da Serra. Naquele décor sem egual, que dir-se-hia feito por um scenografo mitologico para a representação duma opera, em que os interpretes fossem ciclopes, o Palacio do sr. Milhões fere como uma desarmonia, choca como um contraste violento, ofende como a grosseira blasfemia que alguem proferisse a meio dum oficio divino, celebrado no altar-mór duma vasta, imensa catedral.

As edificações em cantaria, para não darem uma impressão esmagadora de peso, absolutamente inestetica, precisam realizar o maximo de harmonia no seu conjuncto, ter um aspecto tal de elegancia que a ele se nos prendam os olhos, numa caricia em que ha o que quer que seja de macio e de leve."

 

 

"Para a edificação do seu Palacio, o sr. Milhões deu esta coisa indispensavel – o dinheiro; mas o arquitecto é que não concorreu com esta coisa imprescindivel – o talento, ou então obedeceu ao unico proposito de pôr ali aquela sumptuosidade, á beira da estrada, para ela gritar a quem passa que é de milhões, muitos milhões, a fortuna do sr. Monteiro dos ditos.

Acontece com certas peças arquitectonicas, o que acontece com certas peças literarias – a opulencia é um indicador de pobreza, nada mais sendo, a profusão de ornatos, a exuberancia de relevos, do que uma vã retorica, procurando inutilmente encobrir ou encobrir uma raquitica eloquencia. A repetição insistente dos motivos classicos, com intencionaes modificações; a estilisação de motivos banaes, revestindo formas estravagantes, algumas infantilmente ingenuas, outras ridiculamente pretensiosas, tudo isto, por via da regra, afirma pobreza de concepção, mingua de faculdades creadoras nos dominios da imaginação artistica, carencia daquele bom gosto que se não deixa esmagar pela opulencia, antes se aproveita dela para dar mais realce ao Belo."

 

 

"Positivamente o palacio do sr. Milhões não merece que a gente se detenha na sua contemplação, invejando-lhe as cordas manuelinas para atar feixes de lenha, admirando aquela fauna macabra de gargulas, esfinges e golfinhos que muito bem ficariam reproduzidos em faiança, para efeitos de propaganda artistica, a baixo preço.

Schopenhauer, o filosofo da Vontade, fez uma teoria d'Arte, e eu suponho que ele, posto em frente do palacio do sr. Milhões, considerando as suas condições de resistencia e de peso, a rigorosa adaptação do todo ao fim que se teve em vista realisar, talvez o achasse belo, não se dispensando de notar que sobre aquella base arquitectonica assentaria melhor uma esculptura mais sobria, uma ornamentação menos espalhafatosa."

 

in Brito Camacho (1862-1934), Jornadas (1927).

 

 

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