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Fevereiro 05 2009

 

Peça de faiança pintada à mão, produzida na Fábrica de Loiça de Sacavém, Portugal, em meados do século XX. Conhece-se a existência de uma variante desta figura masculina, com o vestuário em tons de azul, e uma figura feminina complementar destas, com o vestuário em tons de amarelo.

 

Com o advento das  grandes navegações oceânicas, no século XV, a influência das civilizações orientais nas artes decorativas europeias ultrapassou em muito as trocas comerciais até então desenvolvidas essencialmente através da mítica Rota da Seda. 

 

A partir do século XVI, a utilização da cerâmica na Europa, que já muito devia à tradição azulejar e às diversas técnicas decorativas aperfeiçoadas no vasto mundo islâmico, passou a reflectir particular interesse na importação de porcelana da China e, em menor escala, do Japão.

 

A tradição policromática da majólica, o prestígio artístico da obra da família italiana della Robia, a produção dos Países Baixos, contribuíram certamente para suster durante algum tempo a vaga da influência orientalizante na decoração cerâmica.

 

O próprio monopólio das Companhias das Índias terá concorrido para retardar essa adopção, e terá tido  influência na tardia descoberta do segredo da porcelana na Europa, mas em meados do século XVII era já evidente a procura de uma gramática orientalizante na produção cerâmica europeia.

  

Terrina de faiança estampada a azul, da série Chinese Games, produzida na fábrica Davenport, Inglaterra, entre 1830 e 1840.

  

A produção de faiança começou então a traduzir esse gosto orientalizante na decoração das peças, essencialmente através da reprodução de modelos decorativos de influência chinesa, facto que originou em Francês o termo chinoiserie

 

Tal tendência manteve-se até ao século XVIII, quando atingiu o seu auge, e marcou inúmeras peças de porcelana, que a Europa entretanto começara a produzir, precisamente nesse século.

 

Embora com o advento do Romantismo a chinoiserie tenha cedido a um acentuado gosto pelo exotismo em geral  e pelas imagens do mundo islâmico em particular, a decoração cerâmica continuou a apresentar insistentemente imagens que seguiam essa inspiração, constituindo notáveis sucessos de venda e perenidade.

 

A popularidade da louça estampada a azul traduz claramente esse gosto e essa perenidade da herança da porcelana oriental decorada, à mão, nesse tom.

 

Prato de faiança estampada a azul, de série não identificada, produzida na fábrica Davenport, Inglaterra, na primeira metade do século XIX.

   

A mais notável das imagens orientalizantes estampadas corresponde à decoração Willow, de origem inglesa, que foi adaptada e reproduzida por dezenas de fábricas, em toda a Europa, até ao século XX.

 

Essa famosa imagem originou uma canção conhecida em toda a região das Potteries, estabelecidas em Staffordshire, cuja oitava descreve os elementos decorativos da mesma:

 

   Two pigeons flying high,

   Chinese vessel sailing by.

   Weeping willow hanging o'er,

   Bridge of three men maybe four.

   Chinese temples stand,

   Seem to take up all the land.

   Apple trees with apples on,

   A pretty fence to end my song.

 

Note-se que o verso "Bridge of three men maybe four" documenta claramente as diversas variantes que a imagem pode apresentar, consoante a fábrica que a produziu.

 

O forte valor icónico desta decoração, familiar a inúmeras gerações, foi consagrado em Behind Quiet Veils of the Blue Willow, magnífica peça cerâmica criada em 2000 por Red Weldon Sandlin (n. 1958), actualmente no acervo do The Newark Museum, E.U.A.

 

Peça de faiança estampada a lilás, da série Willow (Chorão, em Português), produzida na fábrica John Meir & Son, Inglaterra, entre 1837 e 1842.

 

Com a reabertura do Japão ao mundo ocidental, no início da década de 1850, nova tendência voltou a desenvolver-se na Europa e na América, a qual passou a ser conhecida, ainda em Francês, como japonisme.

 

A consagração desta tendência deu-se durante as exposições universais de 1867 e 1878, e estendeu-se à pintura, marcando a obra de artistas como Claude Monet (1840-1926; cf., entre outras, a obra Madame Monet en costume japonais [1875]) e Vincent van Gogh (1853-1890). (Para a discussão de mais alguns aspectos desta tendência cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/30564.html.)

 

Nas artes decorativas, o estilo Arte Nova mergulhou claramente na influência do japonisme, tendo vários negociantes e galeristas perpetuado esta influência, durante décadas, nas suas colecções de xilogravuras japonesas. Um dos mais famosos coleccionadores destas estampas foi o arquitecto americano Frank Lloyd Wright (1867-1959).

 

Esta influência oriental veio a ser obscurecida no início da década de 1920 com a descoberta do túmulo de Tuthankamon, com o revivalismo de influência egípcia que se seguiu, e com as propostas da gramática Art Déco.

 

No entanto, a popularidade da chinoiserie e do japonisme na cerâmica nunca se desvaneceu completamente, continuando diversas fábricas europeias (Sacavém e Vista Alegre, em Portugal, Sarreguemines, em França, Carlton Ware, em Inglaterra, Bing & Grøndahl, na Dinamarca, para referir apenas algumas) e americanas (Rookwood, Roseville) a produzir ao longo do século XX decoração claramente decalcada dessas fontes.

 

Hoje em dia é possível reconhecer, contudo, clara influência da cultura japonesa no minimalismo predominante em algumas tendências das artes decorativas em geral.

 

Peça de faiança estampada a azul sob o vidrado e decorada a ouro e esmalte policromado sobre o vidrado (técnica designada em Inglês por clobbering), produzida na fábrica Copeland and Garrett, Inglaterra, em 1844.

 

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