Rua Onze . Blog

Março 04 2009

 

Luís Filipe de Castro Mendes (n. 1950), Correspondência Secreta (1995).

 

 

A bibliografia de Castro Mendes iniciou-se em 1983 com a publicação de Recados. Seguiram-se-lhe Seis Elegias e Outros Poemas (1985), A Ilha dos Mortos (1991), Viagem de Inverno (1993), O Jogo de Fazer Versos (1994), a presente obra, Modos de Música (1996), Outras Canções (1998), Poesia Reunida (1985-1999) e Os Amantes Obscuros (1999) e Os Dias Inventados (2001).

A predilecção do autor pela poesia torna-se evidente em Correspondência Secreta, obra que articula monólogos, poesia e prosa epistolar, toda ela ficcional, numa mundividência supostamente setecentista. Embora surjam ao longo do texto algumas citações de correspondência e literatura da época, o seu núcleo desenvolve-se ao longo de um eixo narrativo paralelo à realidade do século XVIII, como se os leitores fossem colocados perante plausíveis realidades alternativas.

Personagens históricas como o Cavaleiro de Oliveira e a Marquesa de Alorna são reconstruídas ao longo do enredo, criando uma imagem da realidade que não foi mas poderia ter sido.

 

 

Dos diversos monólogos que ocorrem ao longo da obra, transcreve-se o seguinte:

 

"Monólogo em que D. João Carlos de Bragança, duque de Lafões, continua a discorrer sobre amores com castrados e cantoras (1782)

 

   Dos lutos mais fortes não falamos; dos homens que viveram o terremoto de 1755 dificilmente colhemos o testemunho do que sofreram. Encontrei nas minhas andanças pelo mundo muitos relatos, poemas e reflexões acerca do funesto acontecimento, mas pouco ou nada escrito por portugueses. Recordo-me bem de andar com meu irmão a vistoriar estragos e ruínas; quando passámos pelos restos carbonizados da Ópera do Tejo, lembrei-me de Gaetano e dos cantores e fui imediatamente procurá-los. Tinham partido nessa mesma noite, enlouquecidos de pavor,e só pararam de fugir em Madrid, onde, como me escrevia um amigo inglês, your musicians came tumbling in naked upon us everyday. Quando voltei a encontrar Guadagni em Londres, ele contou-me que o horroroso espectáculo lhe tinha causado tão grande terror que decidira retirar-se para um convento com o castrado Gizziello, a fim de ambos se redimirem dos seus muitos pecados. Mas Guadagni, sempre motivado para o aperfeiçoamento da sua arte, acabara por tirar o maior partido dos ensinamentos que nesse retiro lhe ministrou o Gizziello e na temporada seguinte os dois pecadores voltaram aos palcos, para perdição das suas almas e deleite de todos nós.

   Voltei, pois, a encontrar Gaetano Guadagni em Londres, andava eu a aprender as leis da Natureza na Royal Society e ele, que estudara a arte de representar com o actor Garrick, sabia explicar-me que o cantor deve ser mais do que uma voz a sair de um corpo inerte: ele põe emm cena as paixões, como o faz o actor no teatro declamado, e convém por isso que conheça ambas as artes. Passeávamos os dois por Londres e recuperávamos uma familiaridade singular, já longe dos corpos e dos desejos. Entendi então o mundo dos castrados, suas guerras e caprichos, ternuras e alianças; e esse conhecimento (sei-o hoje) foi-me amadurecendo a pouco e pouco para maiores transformações.

   Ao contrário, todo o meu diálogo com Marianne Bianchi foi sendo contaminado pelo desejo, ao ponto de as minhas ideias acabarem por se perder na obsessão de a tocar e possuir. Mas isso sucedia também por eu sentir quanto Marianne infinitamente me escapava, não por jogo de esquiva ou banal sedução, mas porque uma natureza tão errante e fugitiva apenas à sua arte se podia dar inteira. Como não há-de amar tudo quanto lhe foge quem ama a vida como eu? Por isto não me causou surpresa que, regressando a desoras do palácio Tarouca, visse ter jápartido para sempre a minha amada, deixando-me naquela estalagem como única lembrança um poema que ela própria compusera sobre o tema de Dido abandonada."

 

 

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publicado por blogdaruanove às 23:44

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