Ainda Miguel Torga

Contaram-me que Miguel Torga (pseudónimo de Adolfo Rocha, 1907-1995), já no hospital e no período final da doença que o vitimaria, era frequentemente instado a receber a visita de uma senhora, familiar de um antigo estadista, que o viria cumprimentar em nome deste. Torga, que não simpatizava nada com esse estadista, recusava sistematicamente a visita, dizendo que não sabia quem ele era, e nem sequer o conhecia.
Prevenia as pessoas mais próximas, aliás, para que não permitissem nenhuma visita-surpresa que pudesse ter consequências mutuamente desagradáveis. E esse desejo foi respeitado até à sua morte.
Após a verificação do óbito, o corpo de Torga passou a noite na sala mortuária do hospital, que a determinada hora foi encerrada. Na manhã seguinte, quando se tinha de abrir a sala para realizar o funeral, verificou-se que a chave tinha desaparecido. Após inúmeras diligências, realizadas em vão, a porta teve que acabar por ser arrombada.
Comentário de quem me relatou o episódio – "O Torga era terrível! Até depois de morto arranjou maneira de se precaver contra visitas indesejadas..."
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