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Rua Onze . Blog

Aki ó-matsu Hito ó-mayowasu Momiji-kana!...

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Aki ó-matsu Hito ó-mayowasu Momiji-kana!...

Literatura Colonial Portuguesa

blogdaruanove, 05.06.09

 

Lígia Guterres (n. 1932), Mussumar (1966).

 

Antes de publicar esta colectânea de narrativas curtas, a autora havia já publicado, na colecção Imbondeiro (cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/235179.html), o conto A Roda, que veio a ser inserido também no presente volume.

 

Posteriormente publicou Kanlunga (1972) e, depois de um longo período em que se dedicou essencialmente à tradução, os livros Lendas e Contos Tradicionais do Sul de Angola (1998) e Gente de Benguela Antiga (2000).

 

Os contos que integram esta colectânea, Mussumar, Pedro, Januário, Eliana, A Roda, desenvolvem-se em torno de uma única personagem, opção sublinhada pelos títulos das primeiras quatro narrativas, traduzindo diversas perspectivas da solidão, que oscilam entre a vida no mar, ou à beira-mar, (Pedro, A Roda) e a vida em terra.

 

Do conto Januário transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Uma manhã, Chingueve que vivia numa cubata em frente da casa de Januário, levantou-se mais cedo com aquele peso que toda a noite não a abandonara. Em frente da porta da cubata vizinha, Rosa cozinhava o mata-bicho. Chingueve não se conteve:

– Você não viu nada esquisito ontem à noite, Rosa? disse.

– Não. Eu não vi. Que você viu, Chingueve?

– Aka! Tenho medo até de contar.

– Conte p'ra mim que você viu.

– Seu Januário 'tava andando em cima do capim do quintal dele. Por cima mesmo, sem dobrar as palhas do capim!

– Não pode ser! Como é que uma criatura é capaz de fazer uma coisa dessas?

–Você não diz que eu sou mentirosa! Eu posso contar mais p'ra você. Ele tinha um lençol muito branco por cima do corpo e dos olhos dele saía lume. Se calha, uma noite você vai ver só com'é. E le digo que fica com medo.

– Súcu iangue! Não diga isso!"

 

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Foge Cão...

blogdaruanove, 04.06.09

Bilhete postal alemão do primeiro quartel do século XX.

 

A propósito da profusão de títulos nobiliárquicos que no século XIX se concediam, surgiu a expressão "Foge cão, que te fazem barão! Para onde, se me fazem visconde?!".

No princípio do século XX essa situação ainda se mantinha, tendo a seguinte variante sido expressa por Bulhão Pato (1829-1912) na primeira quintilha do seu opúsculo A Dança Judenga (1901):

 

   "D'entre os fastos portuguezes,

   E do punho realengo,

   Saía um barão... ás vezes!

   Hoje – d'um queijo flamengo

   Sáem condes e marquezes!"

 

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Autógrafos - António Damião

blogdaruanove, 03.06.09

 

António Damião (n. 1941), Na Boca da Infância (1988).

Capa de Henrique Cayatte (n. 1957).

 

 

Essencialmente associado ao chamado romance policial através do seu pseudónimo Henrique Nicolau, sob o qual publicou diversos livros, o primeiro deles,  O Trabalho é Sagrado, galardoado com o Prémio Caminho de Literatura Policial de 1985, António Damião apresenta-nos aqui uma obra singular no seu percurso de escritor.

 

Singular porque, embora desague numa literatura de memórias da infância e da adolescência como a de Altino do Tojal (n. 1939) e Diniz Machado (1930-2008), apresenta um discurso de narrativa aberta e sem enredo centrado num fio condutor clássico, transpondo a espontaneidade da memória e da oralidade, e a sucessiva alternância de personagens, para o desenrolar da narrativa.

 

Singular também porque é a sua única obra deste género numa produção literária cuja expressão editorial se limita, até agora, aos anos que medeiam entre 1985 e 1993.

 

Deste discurso memorialístico, transcrevem-se cinco parágrafos.

 

"O Rafael Lingrinhas sabia coisas à brava sobre mulheres. Até sabia os truques que elas usavam quando queriam secretas e especiais carícias. 'Temos de tar sempre a pau com elas, é pessoal de muito saber!' Era um tipo tramado, andava com uma maltosa de respeito e não ligava  a ninguém, fazia sempre e só o que lhe apetecia. Então depois da cena com os polícias ficou famoso.

 

'Eh, pá!, até tava a ver os putos a jogar à bola no largo quando os chuis vieram. Pelos meus dois se não é verdade. Tava encostado à parede e deixei-me ficar. Mal os gajos apareceram os putos pisgaram-se. Os cabrões ficaram lixados de não terem apanhado nenhum e vieram marrar comigo. Deixei correr o marfim porque não tinha nada a ver com aquilo. Vai daí, sem mais aquelas, um sacana deitou-me os gadunhos. Esse levou com uma cabeçada naquelas fuças que ficou logo c'as trombas à Benfica. Ao outro filho da puta que vinha de lado, ferrei-lhe um pontapé nos tomates que o dobrou em dois. Só qu'eu não tinha visto qu'havia mais dois. Esses vieram logo com cassetetes. A primeira ainda a aparei no braço, qu'esta merda é qu'ainda me dói, o outro acertou-me em cheio no toutiço qu'até fiquei zonzo e aí é qu'os filhos dum cabrão me caíram todos em cima à uma. Porra, tamém eram quatro! Memassim, a dois marquei-os. Um, quando olhar prò espelho, há-de se lembrar cá do rapaz. E o outro, tesão pra que te quero, qu'eu sei qu'o gajo foi operado e ficou desenganado dos médicos. Disse-me o Juca, qu'o pai é enfermeiro e ouviu os médicos dizerem qu'o chui agora fica picha fria. É pra que saiba que biqueiranço cá do menino não é fofo pra setim. O que me safou foi o meu tio, qué um granjola lá na Legião, é um manda-chuva do caneco, e pôs a canzoada em sentido, senão os gajos enfiavam-me na Tutoria e eu alancava até ir prà tropa qu'era um descanso. Livrei-me de boa, livrei!...'

 

Rafael Lingrinhas ficou herói até a malta se lembrar. Só quem lhe fazia má cara era o marido da Leocádia peixeira, que até mudava de passeio quando o via.

 

'O corno é manso. Um dia vinha a sair de casa dele, depois de ter despejado na mulher, o esperto topa-me e pergunta-me o qu'é qu'eu andava por ali a farejar. Amandei-lhe logo: ando a dar uso à canastra qu'o teu carapau tá podre. O gajo cresce para mim e eu toma: vê lá s'amansas qu'eu hoje não trago muleta e posso fazer aqui um chinfrim qu'até mete inteligente, chocas para te meterem no curro e tudo. Xô!, quietinho qu'ind'é melhor. Como na tua gamela quando quero e m'apetece e tu bicuaite qu'é pra isto não dar festa brava com cartazes e tudo. Eh pá, só queria que vocês vissem! O cabrão ficou tão mansinho qu'era um desgosto vê-lo. Palavra qu'até tive dó dele. Chiça qu'é de mais, tamém é preciso ser muita merdas! Memassim, qualquer dia deixo aquilo. Já ando à coca dum material mais prò fino, do baril. Uma chavala aí mais do sério. É qu'o cheiro a peixe da gaja já m'anda a chatear. Enjoa-me, caraças!'

 

O Rafael Lingrinhas estava a apaixonar-se. Deu-lhe tão forte e feio, que um dia a malta ficou toda banzada quando o viu passar janota a preceito, de lancheira na mão, numa de trabalhador honesto e competente."

 

 

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