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Fevereiro 06 2009

 

Manuel Ferreira (1917-1992), Hora di Bai (1962).

 

Nesta sua obra, aos temas recorrentes na literatura de Cabo Verde – a fome e a migração (ou emigração), Manuel Ferreira acrescenta um terceiro – a música.

 

Iniciando-se em 1943 com uma viagem de S. Nicolau para S. Vicente, uma viagem a bordo do navio N.ª Sr.ª das Areias onde se encontram refugiados que tentam escapar a uma situação de fome e miséria, a narrativa conclui-se com uma leva para S. Tomé, pois a fome, afinal, também assolava S. Vicente.

 

Mas os temas da fome e do constante drama da migração são aqui permeados pela música e pelas mornas de Cabo Verde. Aliás, o próprio título da obra, que significa hora da partida ou da despedida, reflecte os versos de uma morna de Eugénio Tavares (1867-1930), cujos fragmentos são diversas vezes repetidos ao longo do romance:

 

  "Hora di bai,

   Hora di dor!

   Amor,

   Dixa'n chorá

   Corpo catibo"

  

As mornas de Eugénio Tavares são evocadas conjuntamente com outras composições de Amândio Cabral (n. 1935; note-se que Manuel Ferreira credita a célebre morna Sôdade como sendo de Amândio Cabral, sabendo-se hoje que o seu verdadeiro autor foi Armando Soares [1910-2007]), Beléza (pseudónimo de Francisco Xavier da Cruz, 1905-1958) e Ovídio Martins (1928-1999), bem ainda como algumas composições ligadas ao movimento Claridade.

 

É esta música melancólica que perpassa pelo romance, como contraponto às trágicas mortes de homens, mulheres e crianças famintas, ao adultério, às pilhagens dos navios encalhados, às pilhagens dos armazéns de açambarcadores, às cargas dos militares, ao desterro dos membros da oposição... E tudo isto enquanto se espera o milagre da chuva, que chega tarde e nunca perdura:

 

"No dia seguinte chegaram notícias boas. Chovia em Santiago. Chovia em S. Nicolau. Cerca do meio dia caíram também pingos grossos em Santo Antão. E, à tardinha, aí pelas cinco horas, durante minutos, a chuva caíu, caíu, em S. Vicente, grossa e fresquinha, tão grossa, tão fresquinha que a ilha inteira dir-se-ia ficar sob o halo da ressurreição. Perto da noitinha, vieram de novo chuvas violentas, fartas, trazendo ao arquipélago um vigor sadio, uma seiva que penetrava no solo, nas rochas, nos bichos, nos animais, no sangue das próprias gentes. Caía abundante, sacudida por rija trovoada e como que desferida pelos relâmpagos. As ruas do Mindelo eram ribeiras e o povo inteiro saiu a receber no corpo a chuva abençoada. As mulheres arregaçavam os vestidos e corriam, alegremente, de um lado para o outro, cabriolavam, gritavam, saltitavam pelas poças, saracoteavam-se, encharcando-se de água numa euforia desbragada, como se aquela chuva fosse a anunciação de uma nova aurora.

Que rostos tão felizes!

Nha Venância, da janela da sua casa, assistia a este maravilhoso espectáculo, de lágrimas nos olhos.

As populações despertaram e criaram alentos novos.

Mas, ao outro dia, veio a desilusão. Manhã triste, abafada, nem uma aragem sequer. A terra continuava encrespada e a temperatura insuportável, como se um fogo inquieto  e perverso manasse das entranhas da própria ilha."

 

É talvez esta alternância entre a esperança e o desespero que faz de Cabo Verde, na opinião de Nha Venância, uma terra nhanhida, uma terra infeliz, uma terra desgraçada...

  

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Fevereiro 06 2009

 

Nº 6. Portalegre - Trecho da cidade, visto da Serra.

Bilhete postal das primeiras décadas do século XX.

Edição de Antonio Afonso Franco.

 

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Fevereiro 06 2009

 

Rótulo para caixas de uma empresa frutícola da Califórnia, E.U.A. Meados do século XX.

 

"Se o leitor alguma vez fôr a Felgueiras, no verão, recomendo-lhe que peça uma limonada no Café Central. Dão-lhe um grande copo d'agua fresca, muito fresca e assucarada, faltando-lhe apenas o sumo ou a casca de limão para ser uma abundante  e agradabilissima limonada. Convem, por isso, que leve um limão na algibeira, na certeza de que agua mais fresca e servida em copo tão grande, dificilmente apanha em qualquer outra parte."

 

in Brito Camacho (1862-1934), Jornadas (1927).

 

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Fevereiro 06 2009

 

Almanaque lIustrado de Fafe para 1939, 31.º ano de publicação.

 

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Fevereiro 05 2009

 

Cairo. Evening tide on the Nile.

Bilhete postal da primeira metade do século XX.

Edição The Oriental Commercial Bureau, Port Said (Egypt).

 

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Fevereiro 05 2009

 

Ilustração, com figura feminina de inspiração Arte Nova, de Alonso (pseudónimo de Joaquim Guilherme Santos Silva [1871-1948]) para a capa do Almanach Bertrand de 1913.

 

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Fevereiro 05 2009

 

Binnenhuisje (Marken)

Bilhete postal (do início do século) circulado de Vila Nova de Gaia para Lisboa, em Dezembro de 1931.

Edição de D. B. M.

 

Alguns outros detalhes suplementares da indumentária feminina da região de Marken podem ser observados em http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/75668.html e http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/205797.html.

 

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Fevereiro 05 2009

 

Zincogravura da segunda metade do século XX, com design de inspiração Arte Nova, para execução do ex-libris de José Figueiredo.

 

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Fevereiro 05 2009

 

Pequena máscara de parede (16,5 x 9,5 cm), de região não identificada (provavelmente, Angola), com vestígios de revestimento em verniz.

Primeira metade do século XX.

 

   "Os indígenas [do Bailundo, Angola] são especialistas em curiosos trabalhos de arte gentílica: manipanços originais; esculturas reproduzindo indivíduos, pássaros e animais; pequeninas bocetas, canilhas, cachimbos, e bugigangas de mil feitios, que devéras tentam o indígena europeu.

 

   Interessante de fixar, sôbretudo, o agudíssimo sentido caricatural que imprimem a certas figuras de madeira, em cujos traços é fácil descobrir feições do missionário americano, ou de qualquer autoridade que lhes desagradou. Bastante interessantes estas colecções, umas vezes de graciosos monos, outras apuradas de linhas, especialmente quando reproduzem pássaros pernaltas ou gazelas, que êles recortam, delicadamente, apenas com tosco canivete.

 

   Continuo a notar que a arte que mais interessa  ao negro é a escultura e o bailado; tem vaga concepção da pintura, apenas exteriorizada nalgumas tatuagens, mas possue apurado instinto decorativo, duma grande sobriedade e harmonia, onde os principais motivos são os animais e as plantas, em desenhos duma grande ingenuidade como os ornatos das quindas, pentes, cabaças e outros objectos de seu uso doméstico.

 

   Os ingleses, e ultimamente os franceses, teem enriquecido os seus museus e colecções particulares com magníficos trabalhos de etnografia e arte colonial. Lamento que o interessantíssimo problema da arte gentílica seja uma coisa quási desconhecida em Portugal."

 

in Julião Quintinha (1885-1968), Africa Misteriosa (Volume I; data de publicação impressa no volume, 1928; data de publicação referida na nota final, 1929), pp. 292-293.

 

Pormenor de um bastão em madeira e marfim (90,3 cm), de região não identificada (provavelmente, Angola).

Segunda metade do século XX. 

Note-se a caricaturização do perfil europeu, numa peça artesanal destinada certamente à comercialização urbana.

 

   As doações que ao longo das últimas décadas passaram a integrar o acervo do Museu Nacional de Etnologia (http://www.mnetnologia-ipmuseus.pt/Coleccao.html) e as recolhas, metódicas e significativas,  das colecções da Universidade de Coimbra (http://www1.ci.uc.pt/sdp/prospecto/0203/museus/museu2.html), antecedendo em muitas décadas o texto de Julião Quintinha, consubstanciam uma realidade diferente daquela que o autor regista no último parágrafo.

 

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Fevereiro 05 2009

 

 

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