Autógrafos - Natércia Freire

Natércia Freire (1919-2004), A Alma da Velha Casa (1945).
Capa de Inês Guerreiro (datas desconhecidas).

Tendo publicado anteriormente dois volumes de poesia, Estátua (1941) e Horizonte Fechado (1943), conforme anunciado no presente volume (embora a BNP registe em 1939 a obra Meu Caminho de Luz), Natércia Freire veio a receber em 1971 o Prémio Nacional de Poesia, ex-aequo com David Mourão-Ferreira (1927-1996), pela sua obra Os Intrusos, mas já em 1955 havia recebido o Prémio Ricardo Malheiros pela obra em prosa Infância de Que Nasci.
Este seu volume de contos, A Alma da Velha Casa, trata recorrentemente da perda, da morte e da solidão, com um acento tónico da narrativa e das personagens na sofredora visão feminina do mundo.
De entre esses contos, salienta-se A Preta, como a única narrativa onde surgem a felicidade, a alegria e a esperança, que nem sempre são características da infância na obra da autora, como se comprova em Perdi Alma. Mas é em contos como O Regresso Dela que se testemunha a concepção literária de Natércia Freire para um mundo de personagens inexoravelmente condenadas ao sofrimento e à amargura.
Deste último conto transcreve-se um breve excerto:
"Viera sentar-se no banco rangente de pinho, com a melhor saia preta de sarja que comprara na loja do senhor Matias, o seu melhor chaile prêto, o seu melhor lenço de cabeça, os seus melhores sapatos, abotoados com uma grande fivela niquelada, tudo ainda do tempo dêle, sòmente com a diferença de que, no tempo dêle, ela nunca vestira aquela roupa conjuntamente. Viera sentar-se ali, à frente da casa, com as paredes brancas detrás de si, tarjadas de prêto como o lenço a que enxugava as lágrimas amargas, e os carris de ferro, brilhantes do sol e saltitantes da luz, à sua frente. Havia, para lá do muro que limitava a linha e mesmo de cara para casa, uma enorme mata de carvalhos umbrosos e de eucaliptos, de cheiro acre, onde os lenhadores passavam os dias a cortar toros, na sua cantilena lúgubre de vida que tomba. E, se calhava alguém passar de perto, rente ao muro e do lado da linha, quando ameçava cair derrubada à fúria dos machados alguma árvore condenada, o estilo e a frase eram sempre os mesmos, arrastados e melancólicos, a encher de receios e ritmos tristes aquela solidão:
– Ó de lá, ó da mata... Vai gente..."
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