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Maio 29 2009

 

E ainda hoje, entre cada poderoso toque, se ouve um gemido longo e baixo, que termina sempre no soluçado som de um lamento, como se uma mulher, chorando, murmurasse - "Hiai!" E ainda hoje as pessoas, quando ouvem aquele grande gemido dourado, mantêm o silêncio. Mas quando o claro e doce estremecer vem pelo ar, soluçando aquele "Hiai!", então, sem dúvida alguma, todas as mães Chinesas, em todos os coloridos caminhos de Pequim, murmuram aos seus pequeninos: "Oiçam! É Ko-Ngai gritando pelo seu sapato! É Ko-Ngai chamando pelo seu sapato!"

 

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Maio 28 2009

 

Apesar de tudo isto, a ordem do Celestial e Augusto tinha de ser obedecida e o trabalho dos moldadores concluído, embora o resultado pudesse voltar a ser decepcionante. A incandescência do metal, contudo, parecia mais branca e pura que antes, não havendo sinal do belo corpo que ali tinha sido sepultado. Por isso, o pesado molde foi feito. E, reparem bem, quando o metal esfriou, descobriu-se que o sino era belo de se ver, perfeito na forma e maravilhoso na cor. Mais do que qualquer outro sino. Não se encontrou nenhum vestígio do corpo de Ko-Ngai porque este havia sido completamente absorvido pela preciosa liga, e misturado com o latão e o ouro, a prata e o ferro, em perfeita combinação. Quando fizeram soar o sino, descobriu-se que os seus tons eram mais profundos, e mais doces, e mais poderosos, que os toques de qualquer outro sino. Ultrapassava mesmo a distância de cem li, ressoando como uma trovoada de verão e como uma vasta voz que pronunciava um nome, um nome de mulher, o nome de Ko-Ngai!

 

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Maio 27 2009

 

Então o pai de Ko-Ngai, ensandecido pela dor, teria saltado atrás dela se uns robustos homens não o tivessem agarrado, mantendo-o bem seguro até ele desmaiar. E assim puderam levá-lo, como morto, para sua casa. A aia de Ko-Ngai, entontecida e emudecida pela dor, permaneceu diante da fornalha, guardando ainda nas mãos um sapato, um sapato minúsculo e delicado, com flores e pérolas bordadas. O sapato da sua bela senhora. Tentara segurar Ko-Ngai pelo pé, enquanto saltava, mas apenas conseguira agarrar o sapato. O bonito sapato ficara-lhe na mão e ela continuava a fitá-lo como alguém que tivesse enlouquecido.

 

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Maio 26 2009

 

Mas antes que levantasse o dedo, um grito fez-lhe voltar a cabeça. Todos ouviram a voz de Ko-Ngai soando distinta e docemente, como canção de ave sobrepondo-se ao grande trovão das fogueiras. "Por ti, ó meu pai!" E saltou para a branca torrente de metal, enquanto gritava. A lava da fornalha rugiu para a receber, cuspindo monstruosas chispas flamejantes para o telhado, transvasando o rebordo da cratera de barro e levantando uma redemoinhante e multicolorida fonte de fogo. Recuou depois, estremecendo, entre relâmpagos, trovões e murmúrios.

 

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Maio 25 2009

 

Veio por fim o terrível dia em que se faria o terceiro e último esforço para moldar o grande sino. E Ko-Ngai, juntamente com a sua aia, acompanhou seu pai até à fundição, tomando lugar numa plataforma sobranceira ao labor dos moldadores e à lava do metal liquefeito. Todos os trabalhadores executavam as suas tarefas em silêncio. Não se ouvia um som, excepto o crepitar das fogueiras. Um crepitar que se aprofundou num rugido, lembrando a aproximação de um tufão. O lago rubro de sangue metálico acendeu-se lentamente, qual vermelhão de sol nascente. O vermelhão transmutou-se numa radiante incandescência de ouro e o ouro embranqueceu de forma cegante, como face prateada de lua cheia. Todos os trabalhadores cessaram então de alimentar a desvairada chama, fixando o seu olhar nos olhos de Kouan-Yu. Kouan-Yu preparava-se para dar o sinal de moldagem.

 

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Maio 22 2009

 

"Ouro e latão jamais acasalarão, prata e ferro jamais se abraçarão, até que a carne de uma donzela seja fundida no cadinho, até que o sangue de uma virgem seja misturado com os metais em fusão." Assim, Ko-Ngai regressou a casa com um aperto no coração. Mas manteve secreto tudo o que ouvira, não dizendo a ninguém o que havia feito.

 

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Maio 21 2009

 

Ora, Kouan-Yu tinha uma filha de deslumbrante beleza, cujo nome – Ko-Ngai – estava sempre na boca dos poetas e cujo coração era ainda mais belo que a sua face. O amor de Ko-Ngai pelo pai era tal que havia recusado uma centena de valorosos pretendentes, para não deixar a casa desolada com a sua ausência. Ao ver a tremenda missiva amarela, selada com o Selo do Dragão, receando pelo destino de seu pai, desmaiou. Quando recuperou os sentidos e a sua força retornou, não pôde descansar nem dormir, pensando no perigo em que se encontrava seu pai. Até que secretamente vendeu algumas das suas jóias e se apressou até um astrólogo com o dinheiro obtido, pagando-lhe uma grande soma para a aconselhar acerca dos meios que poderiam salvar seu pai dos perigos que pendiam sobre ele. Por isso o astrólogo perscrutou os céus e observou o aspecto da Corrente de Prata (por nós denominada Via Láctea), e examinou os signos do Zodíaco, o Hwang-tao, ou Estrada Amarela, e consultou a tabela dos Cinco Hin, ou Princípios do Universo, e os livros místicos dos alquimistas. E depois de um longo silêncio respondeu-lhe, dizendo:

 

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Maio 20 2009

 

"Do poderoso Yon-lo, o Sublime Tait-Sung, o Celestial e Augusto cujo reinado é conhecido como 'Ming', para Kouan-Yu, o Fuh-yin (6): Por duas vezes traíste a confiança que graciosamente nos dignámos depositar em ti. Se falhares uma terceira vez em cumprir a nossa ordem, a tua cabeça será separada do teu pescoço. Treme e obedece!"

 

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Maio 19 2009

 

O sino foi moldado uma segunda vez, sendo o resultado ainda pior. Os metais continuavam, obstinadamente, a recusar misturar-se uns com os outros. Não havia uniformidade no sino, apresentando-se os seus lados estalados e com fissuras, e os seus rebordos com escórias e largas fendas. Por isso, todo o trabalho teria de ser repetido uma terceira vez, para grande desalento de Kouan-Yu. Quando o Filho do Céu ouviu estas coisas, ficou ainda mais zangado que antes. E enviou o seu mensageiro a Kouan-Yu com uma carta, escrita em colorida seda amarelo-limão e selada com o selo do Dragão, contendo as seguintes palavras:

 

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Maio 18 2009

 

Mas quando o metal foi moldado e o molde de barro separado do seu núcleo brilhante descobriu-se que, apesar do grande labor e do incessante cuidado, o resultado era decepcionante. Os metais haviam-se revoltado uns contra os outros. O ouro havia desdenhado a aliança como o latão, a prata não se misturara com o ferro fundido. Por isso, os moldes tiveram que ser preparados uma vez mais, e as fogueiras reacendidas, e o metal novamente derretido, e todo o trabalho tediosa e laboriosamente repetido. O Filho do Céu soube disto e ficou zangado, mas nada disse.

 

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