Rua Onze . Blog

Novembro 06 2009

 

Aki ó-matsu

Hito ó-mayowasu

Momiji-kana!...

 

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publicado por blogdaruanove às 22:48

Setembro 23 2009

 

Luís Cardoso (n. 1958), Requiem para o Navegador Solitário (2007).

 

 

Representante da literatura pós-colonial de Timor-Leste em língua portuguesa, Luís Cardoso é certamente o mais conhecido e internacional dos autores timorenses contemporâneos. Antes do presente volume, publicara já Crónica de uma Travessia (1997), Olhos de Coruja, Olhos de Gato Bravo (2002), e A Última Morte do Coronel Santiago (2003).

 

Neste romance, começando por evocar Ruy Cinatti (1915-1986), poeta que consagrou grande parte da sua obra à memória e ao imaginário de Timor, o autor oferece-nos uma narrativa situada nas décadas de 1930 e 1940, época que culminou com a ocupação japonesa do território.

 

Desenvolvendo em volta da personagem principal, Catarina, uma visão particular de Timor, Luís Cardoso dá-nos conta de um improvável universo autocrático feminino afirmando-se na sociedade e na hieraquia masculina da região.

 

A par disto, faz-nos um retrato da convivência multilinguística na ilha e da subestimada importância da mestiçagem, através da própria protagonista e de outras personagens que orbitam à sua volta, como aquelas provenientes da Índia ou de Cabo Verde.

 

Do romance transcrevem-se duas breves passagens:

 

"Recusei tal oferta. Ela insistiu que Esmeralda, sendo filha de Alberto Sacramento Monteiro e eu, a noiva do pai, era como se fosse minha filha. Teve uma pequena hesitação ao escolher a palavra exacta para definir a minha condição, dado que Alberto Sacramento Monteiro era casado e tinha filhos, estatuto que escondeu dos meus pais. Na altura da sua visita ninguém quis saber se seria casado, se teria mulher e filhos. Quanto à minha condição, não me preocupei nada com isso. Eu era tida como a nona do capitão do porto. Nona em língua malaia significa senhora. Uma forma muito peculiar de dar o dito por não dito. Embora toda a gente soubesse qual a condição exacta. Era a mulher que ficava no cais a abanar o leque à espera do seguinte, depois de ter dado uns retoques na maquilhagem por causa de uma lágrima furtiva que se soltou aquando da partida do anterior."

 

 

 

"Kuroki fez saber ao capitão do porto, que quando os japoneses entrassem em Timor, teria muito gosto em ver Sir Lawrence a cantar o hino japonês. Achava que a sua voz rouca e melancólica se coadunava mais com uma canção oriental.

 

Mas quem levantava a âncora era ele, Alain Gerbault, o navegador solitário, que já tinha participado numa guerra e sabia como aquilo fora duro. Travara batalhas no ar e a sua vida tinha estado por um fio. Talvez fosse essa uma das razões que o fez buscar a paz do mar, longe do rebuliço e da ansiedade das grandes capitais onde se fabricam todas as guerras.

 

A sua respiração foi diminuindo, o coração ainda batia, mas lentamente. Num último esforço quis ver o sol para se orientar, mas já não tinha forças para abrir os olhos. Ainda tentei forçar-lhe a vista para me ver. Fiz-lhe a minha pergunta indiscreta

 

– Encontrou o que procurava?

 

e vi um leve sorriso atravessado nos seus lábios.

 

Um sorriso branco como o de um anjo. Chegado à terra do sol nascente tinha terminado a sua viagem. Há muito que andava em perseguição desse disco de oiro. Soltou uma prece

 

– Enterre-me no Mar, Catarina, enterre-me no Mar."

 

 

Edição brasileira, sem data, de O Navegador Solitário. Uma vez que não se refere o título do original, supõe-se que seja a tradução de L'Evangile du Soleil (1933), título que surge no último capítulo deste livro.

 

Alain Gerbault (1893-1941) efectuou uma viagem solitária de circum-navegação no navio Firecrest, entre 1923 e 1929. Na década seguinte regressou ao Pacífico, tendo acabado por falecer de febre tropical em Díli, Timor-Leste, a 16 de Dezembro de 1941.

 

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Agosto 21 2009

 

Jarra em bronze da famosa empresa alemã WMF, Württembergische Metallwarenfabrik (http://www.wmf.com/). Final do século XIX, princípio do século XX.

 

A decoração, depurada e contida, conjuga uma superfície de fundo em metal martelado, na tradição Arts & Crafts, com uma pequena secção moldada, no terço superior, que evoca claramente os brasões japoneses (mon) reproduzidos na obra Os Serões no Japão (1926; http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/145359.html), de Wenceslau de Moraes (1854-1929).

 

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Julho 31 2009

 

"Penso que recebeste já o retrato em que te fallei, e com o meu retrato o da minha criada, enfermeira e mais 3 pessoas da visinhança, que vieram ver por curiosidade, para dar fé.

 

Temos a primavera em casa, deves ter as asagaos nascidas."

 

Excerto de correspondência endereçada a sua irmã Francisca Adriana Palmira (datas desconhecidas), enviada de Tokushima e datada de 23 de Maio de 1929.

 

O retrato referido no texto é o que se encontra reproduzido na capa do volume Cartas Íntimas de Wenceslau de Moraes (1944), tratando-se do último retrato conhecido do autor. Também este postal datado de 23 de Maio é um dos últimos exemplos de correspondência familiar conhecida, havendo apenas notícia de um outro postal remetido a Francisca Adriana em 18 de Junho. Wenceslau de Moraes faleceu a 1 de Julho de 1929.

 

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Julho 30 2009

 

"Dizes que os dois vão indo sem novidades, o que me dá muita satisfação. Dizes mais que nada soffreram com a revolução. Não, não penso que virá outra revolução tão cedo; mas, dentro de algum tempo, é provavel que venha.

 

(...)

 

Ainda a respeito da 'bernarda', devo dizer-te que recebi os jornaes, entretendo-me a lel-os; é claro que recebi o retrato do esposo ha muito tempo, como te informei, e achei-o magnifico.

 

Agora, com respeito á minha vista. estou quasi bom, ma sé preciso tomar cuidado, o que farei.

 

Vejo que tiveste muitas asagaos. É preciso guardar as sementes para o anno novo. Na inclusa carta mando-te mais algumas sementes, que podem muito bem ser differentes das que já ahi tens.

 

(...)

 

P. S. – Como já em tempos te disse, ha varias maneiras de cultivar as asagaos, alem de psotas no chão, subindo ás paredes, trepando por cordas, etc. N'uma caixa, podem-se dispôr uns poucos de pés, e treparem por caniços. Núm pequeno vaso, é bonito pôr um só pé, não deixando desenvolver, cortando os botões quando pequeninos, de modo a obter uma pequena planta. Por este modo, teem-se muito poucas flores, mas nascem muito grandes. De manhan é facil transportar o vaso para sobre a  mesa de jantar, durante as horas do almoço; e horas depois retiral-o para o ar livre, onde passará toda a noite.

 

Vou mandar-te inclusa uma só semente de asagao d'este anno; ignoro a côr. Por experiencia, vê o que dá."

 

Excerto de correspondência endereçada a sua irmã Francisca Adriana Palmira (datas desconhecidas), enviada de Tokushima e datada de 22 de Setembro de 1928.

 

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Julho 29 2009

 

"Recebi hoje a tua cartinha de 12 de Dez.º, por signal com uma borboleta que tu apanhaste no campo, creio que em Carriche. Lembra-me isto um ditado japonez, que diz: – Aki no Chôchô, abonai! (borboleta do outomno, toma cuidado!). Com effeito, algumas borboletas vivem até ao outomno; mas tomem cuidado, abonai! qualquer contratempo que sobrevenha, leva-as o diabo; a tua foi morrer nas tuas mãos, que não são precisamente o diabo!...

 

(...)

 

As sementeiras tambem em breve vão chamar a tua attenção para o resurgimento da primavera, que já não vem muito longe. N'uma carta anterior, pedi-te que me mandasses 3 ou 4 sementes de asagao, das pequeninas; o pedido deve chegar-te em breve.

 

Respondendo ao que me contas do systema moderno de distribuição das cartas do correio, concordo comtigo em que é muito atrapalhado, e dará provavelmente causa a extravios, mais do que antes. Esta coisa de estarem sempre a pensar em modas novas!...

 

Não tenho nada que contar-te a meu respeito. Frio e mais frio; esperemos o bom tempo. No entretanto, cuidado e mais cuidado, cuidado sempre, para que não te fiquem más lembranças d'este resto de invernia; o rabo é sempre o peor de esfolar. E que me dizes tu agora da comparação de Nellas com Lisboa? A invernia mais dura, mas já estavas habituada com ella, e a paizagem de Nellas mais encantadora do que em Lisboa. As rans, em Lisboa como em Nellas, por toda a parte a mesma coisa, mas em Lisboa mais difficuldade de as encontrar."

 

Excerto de correspondência endereçada a sua irmã Francisca Adriana Palmira (datas desconhecidas), enviada de Kobe e datada de 14 de Janeiro de 1928.

 

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Julho 28 2009

 

"Tiveste bonitas azagaos, fizeste a colheita das sementes, que deste a algumas pessoas. Mto. bem. Olha: eu já não penso em azagaos, falta-me o tempo p.ª tanto; mas, se me podes mandar 2 grãos de semente da vermelha pequenina, e outros 2 grãos de semente da roxa pequenina (ao todo 4 sementes, não mais), manda-me immediatamente, para eu ainda poder semear, pois são essas duas qualidades que eu mais estimo, e ainda quero ver se consigo semeal-as.

 

Falemos agora do retratinho. Magnifico. Mto. obrigado. Pagaste por certo bons escudos, o que me causa pena.

 

O teu "Xano" continua melhor, mas feio e triste. Os gatos não vivem muito; uns 12 annos é o maximo. O meu morreu ha poucas semanas, soffrendo muito durante uns 2 ou 3 annos. Há poucos dias obtive uma gatinha ainda m.to nova, da raça chamada aqui miké, que quere dizer de 3 côres (branca, amarella e preta) pouco vulgar no Japão, e não sei se ha em Portugal. Não há gatos miké, todas são gatas. É linda. Eu não posso viver sem um gato, ou antes uma gata. Adoro estes animaes. Alem d'isso, ha a utilidade absoluta de ter gatos em casa. Depois de morrer o meu gato, os poucos dias que estive sem o bicho foi uma desgraça! As ratazanas invadiram-me logo a casa, estragaram-me muita coisa, mataram e devoraram os meus frangos, foi o diabo. Logo que entrou a gatinha, matou 3 ratazanas, e as outras todas desapareceram de casa."

 

Excerto de correspondência endereçada a sua irmã Francisca Adriana Palmira (datas desconhecidas), enviada de Tokushima e datada de 23 de Novembro de 1927.

 

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Julho 27 2009

THE FEAST OF DOLLS (after the original Japanese drawing), from "Queer Things About Japan" [1913], by Douglas Sladen [1856-1947].

Bilhete postal da série Oilette, editado por Raphael Tuck & Sons, Inglaterra.

Final da década de 1910 (este postal é o número 2591 da série, que foi lançada em Agosto de 1914).

 

"É hoje o dia dos teus annos. Parabens. Está cá um tempo magnifico, um tanto frio, mas um sol maravilhoso. Mto. desejo que tambem em Nellas esteja um bello dia e que o passes alegremente. Coisa curiosa! Lembro-me perfeitamente da occasião em que me annunciaram (não sei quem) a tua nascença; tinha eu menos de 3 annos; estava no quintal ao pé da cascata [na sua casa, Travessa da Cruz do Torel, n.º 4], era pela tarde, ou pelo  menos não fazia sol; talvez fosse a Rogeria quem m'o disse. De outros factos da minha vida de creança, depois, quasi não me lembro de nada. Já te informei que guardasses o meu artigo "Um Jantar de Festa" como lembrança dos teus annos; hoje mando-te mais 2 livrinhos p.ª creanças japonezas, mui lindamente illustrados, comprados aqui em Tokushima; talvez te fassam rir um bocado, por isso t'os envio. Nada de novo por cá; ainda muito frio mas já cheira a primavera e não tardará m.to o calor. A respeito de flôres, já vejo bastantes. Creio que te encontras perfeitamente e que em breve recomeçarás os teus passeios por esses campos fóra; ahi deve haver rouxinoes p.ª ouvir cantar, junto dos regatos."

 

Excerto de correspondência endereçada a sua irmã Francisca Adriana Palmira (datas desconhecidas), enviada de Tokushima e datada de 1 de Março de 1920.

 

 

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Julho 24 2009

 

"Julgo que este postal te chegará ás mãos perto do 1.º de Março; serve pois p.ª te enviar a expressão dos meus parabens pelo dia dos teus annos, desejando-te que se repitam como esse por longos annos, com m.ta saude, na companhia do teu Esposo, tambem com m.ta saude.

 

Segue por esta mesma occasião um pequeno volume registado, q. te envio como lembrança do dia. Contem varias gravuras japonezas, em meu poder ha m.tos annos, mas que creio te serão agradaveis e ornamentarão de qualquer modo a tua casa. Ha um anno extraviou-se em caminho o panno de lã que te mandei; espero q. desta vez não succederá o mesmo, visto ir o volume registado. Veremos."

 

Excerto de uma carta endereçada a sua irmã Francisca Adriana Palmira (datas desconhecidas), enviada de Tokushima e datada de 13 de Janeiro de 1916.

 

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Julho 23 2009

 

"Effectivamente, durante uns dias, julguei que o meu caro ia partir com a tal divisão. O que a Chica me dizia em cartas confimava de certo modo as minhas suspeitas; e eu entendia dever dizer-lhe coisas que a levassem a acceitar sem grande alvoroço a triste separação. Mas depois, pelo que os poucos jornaes que leio me foram informando, conclui que a tal famosa divisão não partiria para juntar-se aos alliados e que por isto o meu caro  não partiria tambem, o que agora a sua carta me confirma. Ainda bem que assim é.

 

Tam assustadora como a guerra, ou talvez mais, apresenta-se a  situação politica do paiz, não é assim?... O meu amigo nutre ainda um resto de esperança de "chegue afinal o juizo, de que todos carecemos". Bem bom será que assim seja, mas é muito duvidoso. Em Portugal, a coisa que menos se encontra é o juizo; somos um povo de gente boa, mas degenerada, falta de bom senso. No povo rude das aldeias ainda se encontram muitos elementos aproveitaveis; mas na gente culta, das cidades, a degenerescencia que se nota é uma verdadeira desgraça; degenerescencia que se traduz, entre outros modos, em incompetencias profissionais, em falta de tino pratico, em falta de aptidões para a vida social como ella é em toda a parte. É, pelo menos, a impressão que tenho, comprovada pelos sucessos que se vão dando e por algum raro exemplar de portuguez que cá me chega ou de quem me fallam.

 

(...)

 

Desculpe esta enfadonha carta. Consta-me que em Portugal abrem de quando em quando as cartas, como medida de ordem publica. N'esta, se a abrirem, nada se encontrará, penso, que possa incommodal-o. É a opinião unica e exclusiva de um sujeito que vive em quasi miseria, mas que em compensação pode fallar como quizer, pois nada depende de monarchicos, nem de republicanos, nem de socialistas, nem de pessoa alguma, pois come o arroz das suas magras economias e mais nada."

 

Excerto de uma carta endereçada ao coronel de cavalaria e seu cunhado José Gonçalves Paúl, (datas desconhecidas), marido de sua irmã Francisca Adriana Palmira (datas desconhecidas), enviada de Tokushima e datada de 26 de Março de 1915.

 

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