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Julho 22 2009

 

"Recebi hoje a tua carta de 25 de Out.º. Cerca d'aquella data terás recebido um postal meu, no qual te manifestava os meus cuidados por ti e Familia. Ha dias, tinha a certeza de que nada soffreram, senão o susto, com que me consolei.

 

O que se passou nos primeiros dias de Outubro foi effectivamente assustador. Imagino as tuas afflicções, e explico muito bem os incommodos de tua Esposa, de minha Irmã, etc. Mas agora é preciso encherem-se de boa vontade, reagirem contra o mal dos nervos e entrarem na vida normal. A gente de Lisboa é muito piegas, convem não seguirem o exemplo. Essas pieguices é que levaram sobre tudo o paiz á desgraça em que se encontrou.

 

Sabes que a Monarchia estava podre, perdida sem remedio. Veio naturalmente a Republica e devemos esperar d'ella alguma coisa boa para o nosso pobre paiz. O que é preciso é que todos se compenetrem dos seus deveres civicos e que todos trabalhem para o bem commum. Faze tu por teu lado o que poderes, anima-te, não penses mais no zunido das balas que passaram pelo teu telhado.

 

(...)

 

Sabes alguma coisa do Moreira de Sá, Carlos Campos, Carvalhosa (2.º Commandante do Corpo de Marinheiros)? Do Eça tambem não tenho noticias, mas creio que nada soffreu nem sofferá nos seus interesses. Está bem?"

 

Excerto de uma carta endereçada a seu sobrinho Joaquim Adriano de Moraes Costa (datas desconhecidas), enviada de Kobe e datada de 15 de Novembro de 1910.

 

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Julho 21 2009

 

"Recebi a tua bondosa carta de 12 de Fevereiro, tranquilizando-me, pelo que respeita á Familia, a respeito dos ultimos acontecimentos politicos, que tão mal acabaram. Bom foi que tudo corresse sem novidade para todos que me interessam.

 

Quanto a politica, não me espantou o que se deu: foi o resultado da desorganização, cegueira, incuria, vilania, etc., a que chegáramos. É possivel que o paiz tome agora juizo (a licção foi de mestre); mas duvido. E ponhamos ponto n'este assumpto pouco divertido."

 

Excerto de uma carta endereçada a seu sobrinho Joaquim Adriano de Moraes Costa (datas desconhecidas), enviada de Kobe e datada de 23 de Março de 1908.

 

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Julho 20 2009

 

" A respeito de americanos e japonezes e do que tu me dizes a tal respeito, creio bem que não haverá guerra. Nem aos japonezes conviria fazer guerra agora, pois saltariam todos os brancos contra elles. Que não ha nada que se compare com a coragem e valor dos militares japonezes, isso é verdade.

 

(...)

 

Dize ao dr. Rodrigues que ainda não recebi os cinco exemplares dos 'Serões' com o 'Mankamero' e os outros cinco exemplares com 'Uji – A terra do chá'. Elle ha-de rir-se da minha insistencia, mas não faz mal, porque é bom amigo."

 

Excerto de uma carta endereçada a seu sobrinho Joaquim Adriano de Moraes Costa (datas desconhecidas), enviada de Kobe e datada de 27 de Fevereiro de 1907.

 

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Julho 17 2009

 

"Obrigado pelo impresso que me mandas sobre o Jiujitsu; é preciso dar o devido desconto ao que o homem diz; assim, elle assegura que a tuberculose é quasi desconhecida no Japão, quando pelo contrario ella é aqui bem frequente; em todo o caso, esta arte de lucta é admiravel.

 

Pedes-me sellos das colonias. Fica sabendo que só de Macau recebo com regularidade alguns; das outras colonias é rarissimo que aqui me cheguem. Vão juntos uns poucos, para contentar em parte os teus desejos.

 

Gostaste do meu livro "Paizagens"? e do conto que especialmente te dediquei?"

 

Excerto de uma carta endereçada a seu sobrinho Joaquim Adriano de Moraes Costa (datas desconhecidas), enviada de Kobe e datada de 4 de Outubro de 1906.

 

 

Frontispício da primeira edição de Paisagens da China e do Japão (1906), tendo a segunda edição sido já publicada postumamente, em 1938 (cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/140710.html). A segunda edição reproduz integralmente os desenhos e fotografias da primeira, mas apresenta menos quatro páginas. Note-se a discrepância entre a ortografia de Wenceslau de Moares e a ortografia do título, nas duas edições.

 

O conto dedicado a seu sobrinho intitula-se O Pescador Urashima, tendo sido escrito em 1900. Trata-se do último conto da colectânea, embora alguns exemplares da primeira edição apresentem um caderno trocado e este surja parcialmente intercalado entre as páginas 176 e 177, mas com a correcta numeração de páginas, 229-238.

 

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Julho 16 2009

 

" [continuação] Alegro-me em saber que o Dr. Peres Rodrigues e sua Esposa os visitaram, brindando-te com um grande aquario. Eu tenho o Dr. Rodrigues por um homem altamente superior; Portugal inteiro talvez não tenha cem individuos que o egualem; tu e tua irmã são ainad muito novos para o comprehenderem completamente, só bem tarde talvez o possam apreciar como elle merece. No entretanto, devem estimal-o muito, como parente, como um amigo; abrirem-lhe o seu coração, não terem o menor segredo para elle; e finalmente seguirem todos os seus conselhos, pois só n'elle encontrarão guia seguro contra as grandes difficuldades da vida. O Eça [Vicente Almeida d' Eça (1852-1929), cf. http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/107350.html] é outra joia; lembra-te sempre que foi elle que te iniciou na vida de trabalho. Faze por merecer a sua estima.

 

Fallemos do aquario, que dizes vaes povoar. A quadra não é muito boa; a melhor é a primavera e verão. No meu I.º volume das "Cartas" encontrarás, á falta de melhor, alguns conselhos para o caso; mas deve haver livrinhos interessantes, em francês, sobre o assumpto; no meu tempo, já os havia. Eu fiz interessantes colheitas na ribeira de Alcantara, que ja não existe. Procura as ribeiras, os charcos, as fontes; e ahi encontrarás bonitas plantas e animaes; a experiencia, que é o grande meste, te ensinará o resto."

 

Excerto de uma carta endereçada a seu sobrinho Joaquim Adriano de Moraes Costa (datas desconhecidas), enviada de Kobe e datada de 18 de Outubro de 1905.

 

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Julho 15 2009

 

" [continuação] Perguntas-me se é verdade tudo que o Dr. C. B. diz sobre o Japão. Devolvo-te o artigo, para comparares com as minhas informações. Ha muita verdade, mas tambem ha muita mentira.

 

Durante a guerra, o serviço medico japonez mostrou-se magnifico. A hygiene japoneza é soberba. A cremação dos mortos, geral, deve ser de excellente effeito. Para se imaginar o que vale a hygiene japoneza, basta pensar nos horrores da peste na China, na India e n'outros pontos, durante estes ultimos annos; pois o flagello tem sido introduzido por varias vezes no Japão, em virtude das suas relações commerciaes com a China e a India, mas nunca tem conseguido enraizar, limitando-se as victimas a um infimo numero!... O japonez vive muito ao ar livre, mas de noite fecha em geral as suas janellas. O japonez é vegetariano, mas não por systema; come tambem muito peixe e mariscos; não gosta muito de carne de vacca, mas nas grandes povoações já a come; nas localidades do interior não usa d'ella. A tal comida do homem do campo, composta de tomates, pepinos e saladas, é pêta; o japonez não come tomates, mas beringelas, pepinos, espinafres, nabos, feijão, ervilhas, favas, etc. A alimentação do pobre consta geralmente de arroz cosido sem sal, salmoira de nabos e uma chavena de agua morna. O japonez nunca bebe chá com leite, mas só chá, sem assucar, alguma cerveja e o vinho indigena, saké; quasi nunca bebe agua. Toda a gente toma banho, e frequentemente; o banho é muito quente, e depois d'elle muitas pessoas lavama a cabeça com agua fria; a grande maioria da população, naturalmente pouco abastada, usa dos banhos publicos, pagando menos de 10 reis por cada banho. Eis o que me occorre dizer-te sobre o artigo em questão. [continua] "

 

Excerto de uma carta endereçada a seu sobrinho Joaquim Adriano de Moraes Costa (datas desconhecidas), enviada de Kobe e datada de 18 de Outubro de 1905.

 

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Julho 14 2009

 

"Acabo de receber a tua carta de 11 de Setembro, a primeira que me annuncia a chegada a Lisboa dos primeiros volumes do "Culto do Chá". Obrigado pelas amáveis expressões. Agradeço também a remessa de alguns artigos de jornaes a proposito do Japão, dos quaes apenas já lêra um.

 

Sobre a tua pergunta a proposito da gravura colorida japoneza, direi antes de tudo que os especimens que o meu livrinho te apresenta são dos mais ordinarios, isto por motivos de economia e tambem pela difficuldade em que me via de saber dirigir-me aos bons mestres. Nada do que vês é aguarella; é pura gravura, executada por processos primitivos, muito lentos, mas admiraveis de tons, por exemplo os esbatimentos. Nas minhas gravuras, os contornos foram impressos por meio de pedra lythographica, empregando só a côr negra; e as côres foram dadas por meio de gravuras em madeira, empregando-se uma chapa para cada côr. Quanto mais côres tem o desenho, mais caro sahe; um desenho com 5 côres, por exemplo, exige a pedra lythographica para os contornos e 5 chapas de madeira!... É este o processo geral da gravura japoneza. [continua] "

 

Excerto de uma carta endereçada a seu sobrinho Joaquim Adriano de Moraes Costa (?-1905), enviada de Kobe e datada de 18 de Outubro de 1905.

 

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Julho 13 2009

 

 

"Recebi hoje uma carta sem data, tua. Respondo. Não repares em não ser o papel tarjado de preto. Não tenho aqui outro á  mão; o luto, pela nossa querida e pobre doente [Emília Regina, sua irmã e mãe de Joaquim Adriano], tenho-o no coração.

 

Hoje mesmo te mandei um telegramma, escripto em francez por não admittir o governo japonez, durante a guerra, que os telegrammas particulares sejam expedidos n'outra lingua que não seja o francez ou inglez. O telegramma foi assim: "Approuve tes vues. Wenceslau". Creio que o receberás sem inconveniente algum."

 

Excerto de uma carta endereçada a seu sobrinho Joaquim Adriano de Moraes Costa (datas desconhecidas), enviada de Kobe e datada de 8 de Maio de 1905.

 

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Julho 10 2009

 

 

"Não penses em guerra, os russos não me cortarão a cabeça, nem tão pouco os japonezes. Estimarei muito saber as noticias tuas que me promettes, mas não marques prazo; venham quando calhar, e quando te sentires em disposição para tal. E olha, não escrevas sempre cartas, que dão mais trabalho do que os bilhetes postaes; eu mesmo desejo possuir tres bilhetes postaes illustrados, escriptos um por ti, outro pela Maria [sobrinha Maria Luísa de Moraes Costa] e outro pelo Joaquim [sobrinho Joaquim Adriano de Moraes Costa], enviados para cá pelo correio, isto para a minha collecção de bilhetes postaes illustrados, começada ha pouco tempo; indico-te pois um meio facil de me darem noticias."

 

Excerto de uma carta endereçada a sua irmã Emília Regina Perpétua de Moraes (?-1905), enviada de Kobe e datada de 24 de Junho de 1904.

 

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Julho 09 2009

 

"Vou agora fazer-te dois pedidos, e se quiseres desempenhar-te d'elles, bom será: mas ficarão á tua unica responsabilidade, não á de tua mãe, que, coitada, pelas suas occupações caseiras, não terá facilidade de desempenhar-se délles a meu contento. Um, é comprares-me o livro de João de Deus do qual te envio o annuncio, e mandares-m'o para aqui pelo correio. Outro, mais complicado, é indagares no escriptorio do "Diario Popular" quando termina a assignatura que ahi mandei fazer por um anno; toma nota da data, e não digas mais nada aos homens; mas, quando fôr occasião, isto é no dia em que acabar a minha assignatura, toma uma assignatura em teu nome, por 6 mezes se fôr possivel, lê os jornaes se gostas, e manda-me todas as semanas um pacote d'elles pelo correio, com uma boa cinta de papel e amarrados depois, mas não registados."

 

Excerto de uma carta endereçada a seu sobrinho Joaquim Adriano de Moraes Costa (datas desconhecidas), enviada de Kobe e datada de 29 de Novembro de 1900.

 

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Aki ó-matsu Hito ó-mayowasu Momiji-kana!...
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