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Março 24 2009

 

De baixo para cima, no sentido dos ponteiros do relógio – quatrocentos reis, de 1790, reinado de D. Maria I (1734-1816; rainha, 1777-1816); dois escudos e cinquenta centavos (dois e quinhentos, cinco coroas, vinte e cinco tostões), de 1944; dez escudos (dez mil reis), de 1932, e dez centavos (um tostão), de 1915.

 

"Ainda não ouvi falar de escudos em Vizella. No que diz respeito a dinheiro, pelo que observo e pelo que me dizem, o Minho [em 1926] ainda reza pela cartilha monarquica.

– Como vende os figos, tiasinha?

– Seis á corôa.

– Como vende os lenços, menina?

– Oito mil reis a meia duzia.

Da mesma forma que não se fala em escudos, tambêm não se fala em litros, e o kilo ainda não fez esquecer a libra e o arratel.

– Quanto ganha vocemecê n'um dia, a fiar?

– É conforme, meu senhor. Posso ganhar cinco corôas, se fiar uma meada.

– E quanto pesa uma meada?

– Pesa libra e meia.

O lavrador do Alemtejo exprime a sua produção cerealifera em moios; o lavrador do Minho exprime-a em carros. É o carro de pão, milho ou centeio equivalente a quarenta alqueires. Aqui perto fica o solar d'uma senhora muito rica, possuidora de muitas quintas, pessoa de muito bem fazer e que recolhe, uns anos por outros, trezentos e sessenta e cinco carros de pão – tantos carros como dias tem o ano.

Contou-me o barqueiro do passeio á Ilha dos Amores que esta Senhora, aqui ha anos, teve de pleitear nos tribunaes uma questão de paternidade ilegitima, por ter o seu primeiro marido, de colaboração com uma francesa, engendrado um pimpôlho que se habilitou á herança do pai. Muito devota, a Senhora ofereceu cincoenta contos a S. Torquato se tivesse ganho a causa. Ao mesmo tempo constituiu advogados, não por ter menos confiança no Santo, mas porque havia certas diligencias a fazer junto das testemunhas, que não ficaria bem ao santo fazel-as directamente.

– E vocemecê acha que a Senhora ganharia a questão se a tivesse entregado a S. Torquato, dispensando os advogados?

Agóra ganhava! As testemunhas foram dizer ao tribunal o que os advogados lhes tinham ensinado, e foi por isso que a franceza perdeu.

– Mas S. Torquato recebeu os cem contos?

– Pois se a Senhora fez a promessa, havia de cumpril-a."

 

in Brito Camacho (1862-1934), Jornadas (1927).

 

 

Espécime de uma nota de mil escudos (um conto de reis) de Timor, emitida em 1968.

 

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Março 20 2009

 

"O palacio do sr. Milhões, construido á beira da estrada, entre Pizões e Setiaes, é todo em pedra rendilhada, duma alvura que contrasta desagradavelmente com o verde nuancé do arvoredo que o cerca, dum preciosismo arquitectonico que repugna á magestosa severidade da Serra. Naquele décor sem egual, que dir-se-hia feito por um scenografo mitologico para a representação duma opera, em que os interpretes fossem ciclopes, o Palacio do sr. Milhões fere como uma desarmonia, choca como um contraste violento, ofende como a grosseira blasfemia que alguem proferisse a meio dum oficio divino, celebrado no altar-mór duma vasta, imensa catedral.

As edificações em cantaria, para não darem uma impressão esmagadora de peso, absolutamente inestetica, precisam realizar o maximo de harmonia no seu conjuncto, ter um aspecto tal de elegancia que a ele se nos prendam os olhos, numa caricia em que ha o que quer que seja de macio e de leve."

 

 

"Para a edificação do seu Palacio, o sr. Milhões deu esta coisa indispensavel – o dinheiro; mas o arquitecto é que não concorreu com esta coisa imprescindivel – o talento, ou então obedeceu ao unico proposito de pôr ali aquela sumptuosidade, á beira da estrada, para ela gritar a quem passa que é de milhões, muitos milhões, a fortuna do sr. Monteiro dos ditos.

Acontece com certas peças arquitectonicas, o que acontece com certas peças literarias – a opulencia é um indicador de pobreza, nada mais sendo, a profusão de ornatos, a exuberancia de relevos, do que uma vã retorica, procurando inutilmente encobrir ou encobrir uma raquitica eloquencia. A repetição insistente dos motivos classicos, com intencionaes modificações; a estilisação de motivos banaes, revestindo formas estravagantes, algumas infantilmente ingenuas, outras ridiculamente pretensiosas, tudo isto, por via da regra, afirma pobreza de concepção, mingua de faculdades creadoras nos dominios da imaginação artistica, carencia daquele bom gosto que se não deixa esmagar pela opulencia, antes se aproveita dela para dar mais realce ao Belo."

 

 

"Positivamente o palacio do sr. Milhões não merece que a gente se detenha na sua contemplação, invejando-lhe as cordas manuelinas para atar feixes de lenha, admirando aquela fauna macabra de gargulas, esfinges e golfinhos que muito bem ficariam reproduzidos em faiança, para efeitos de propaganda artistica, a baixo preço.

Schopenhauer, o filosofo da Vontade, fez uma teoria d'Arte, e eu suponho que ele, posto em frente do palacio do sr. Milhões, considerando as suas condições de resistencia e de peso, a rigorosa adaptação do todo ao fim que se teve em vista realisar, talvez o achasse belo, não se dispensando de notar que sobre aquella base arquitectonica assentaria melhor uma esculptura mais sobria, uma ornamentação menos espalhafatosa."

 

in Brito Camacho (1862-1934), Jornadas (1927).

 

 

Conferir ainda: http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/search?q=regaleira&Submit=OK.

 

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Fevereiro 20 2009

Vizeu      Cava de Viriato

Bilhete postal do início do século XX.

Edição da Tabacaria Costa - Viseu. 

 

"Vizeu tem direito a ser uma terra de turismo, e estou convencido de que o será, desde que se torne conhecida. Já é regularmente servida de comboios, tem um Hotel que nada deixa a desejar, e oferece á curiosidade do forasteiro, para o entreter durante horas, lindos aspectos da natureza, e raros objectos d'Arte.

Vamos de corrida a Fontello, onde ha uma opulenta mata de castanheiros, e um trecho de jardim, que para ser encantador não precisa senão de alguns cuidados inteligentes, entregue a quem tenha pelas flores o culto que elas merecem. E ainda de corrida vamos de romagem á Cava do Viriato, um legendario barbaças que fez proezas na Beira, ha muitos seculos, ainda o Cristo não era nascido, e bivacou aqui, dizem as cronicas, sempre vencedor contra os romanos, que o fizeram matar á traição, peitando homens da sua entourage. Hoje a Cava, de forma polygonal, é propriedade de varias gentes, uma especie de grande horta com moradias, cheia de milho, feijão, couves... e tradições. Subsistem tres lados apenas do octogono primitivo, um deles convertido em larga Avenida, cheia de sombra, [sic] que as árvores d'um lado e outro, muito altas e muito frondosas, tocam se [sic] formando abobada."

 

in Brito Camacho (1862-1934), Jornadas (1927).

 

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Fevereiro 19 2009

Vizeu      Asilo de Mendicidade Viscondessa de S. Caetano

Bilhete postal do início do século XX.

Edição da Tabacaria Costa - Viseu. 

 

"Não me dispenso de vêr a Malakof, anexo do Hotel Mabilia, onde passei os meus primeiros dias, onde dormi as minhas primeiras noites de Vizeu. Era de correr a janela do meu quarto, e d'uma vez, tendo corrido de mais, caiu em cima d'um [sic] rapariga que estava sentada cá em baixo, na rua, fazendo-lhe uma brecha na cabeça... Estou a ver, como n'um cinema, a minha fita de Vizeu, e se não sinto grandes saudades do tempo que aqui passei [desterrado durante a Monarquia], um ano, tambem não recordo com amargura este periodo da minha vida.

Vão passados tantos anos!

Dos meus companheiros do Gremio já morreram todos ou quasi todos que tinham filhos casadoiros no tempo em que aqui estive, e a muitos me prendiam estreitos laços de estima.

Se ainda viverá a Batatinha?

Era uma costureirita morena, d'olhos pretos, as faces sempre rosadas, a boca bem talhada, circumscripta por uns labios carnosos, que apetecia morder. Ficava-lhe admiravelmente uma penugem que lhe sombreava o labio superior, e tinha-se a impressão, apalpando-os com os olhos, de que os seus peitos, como os da Sulamita, eram cabritinhos montezes, saltando n'um campo de assucenas, o focinho vermelho como pingos de carmim."

 

in Brito Camacho (1862-1934), Jornadas (1927).

 

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Fevereiro 18 2009

VISEU – PORTUGAL   Vista geral da cidade   Vue Générale de la ville

Bilhete postal circulado de Viseu para Oeiras, em Agosto de 1931.

Edição da Comissão de Iniciativa e Turismo. 

 

"Excelente a cozinha do Hotel, mesmo levando em conta que a fome é o melhor aperitivo, além de ser um tempêro de primeira ordem. Servem-nos vinhos da região, tintos e brancos, dando eu preferencia ao branco, de Vila Meã – talvez por ter visto plantar a vinha respectiva, andava o dr. Pedro dos Santos nos seus primeiros ensaios de lavrador.

No Casino, de fundação recente, um sexteto de meninas francesas entretem os serões de quem gosta de musica, estando no á vontade das casas onde se paga o que se consome. No meu tempo, ha vinte anos, as noites quentes passavam se no Rocio, onde ás quintas e domingos tocava a banda regimental, e as noites frias passávam se no Gremio, a conversarem uns, a jogarem outros, salvo quando havia espectaculo no elegante teatrinho da Casa."

 

in Brito Camacho (1862-1934), Jornadas (1927).

 

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Fevereiro 17 2009

Vizeu      Hotel Portugal

Bilhete postal do início do século XX.

Edição da Tabacaria Costa - Viseu. 

 

"Amigos dedicados, que são ao mesmo tempo correligionarios prestimosos, esperam-me na Estação e levam me para o Grande Hotel, num bairro novo da cidade.

Manuel Casimiro, o glorioso artista tauromaquico, tendo passado a mocidade a lidar touros, resolveu passar a velhice a tratar hospedes. Talvez não seja mais lucrativo, mas é com certeza menos perigoso, embora certos hospedes sejam más rezes, sem alusão grosseiraás virtudes conjugaes. Um fidalgo, lembrou-se de construir uma bela casa para Hotel, e logo Manuel Casimiro se meteu a hoteleiro, desembaraçado e solerte como ha trinta anos atraz.

Muita gente, ao que por ahi se diz, não visita a Provincia porque ela, duma fórma geral, não  lhe oferece os indispensaveis comodos de alojamento, para alguns dias ou para algumas horas. Os hoteis, fóra de Lisboa e Porto, são por via de regra maus, alguns são positivamente horríveis, estalagens em que tudo falta – a não ser o pecevejo no verão, e a pulga em todas as estações.

Pois Vizeu tem hoje um magnifico hotel, o Grande Hotel, em que o touriste encontra tudo quanto lhe é permitido desejar fóra de sua casa – se é que em sua casa tem o conforto das instalações modernas, que servem de casulo á burguezia dinheirosa. Quartos amplos, de janelas bem rasgadas, uma mobilia singela, de fabricação local, graciosa e leve, e os leitos á vontade do freguez, quanto ao colchão, sendo preferiveis os de arame, para gente casada, por causa do resalto, que é uma força a aproveitar."

 

in Brito Camacho (1862-1934), Jornadas (1927).

 

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Fevereiro 16 2009

Vizeu      Vista Parcial

Bilhete postal do início do século XX.

Edição da Tabacaria Costa - Viseu.

 

"Paisagem conhecida, a que vou observando, mas apezar d'isso interessante, porque o acidentado do terreno, interrompendo a cada passo o scenario, é como uma fita cinematografica desenrolando-se em plena luz. Muitos pinheiros nas encostas, placas de milho nos vales, arvores de fructo por toda a parte, e as cegonhas molhando o bico em fontes toscas, ou pegos minusculos que forma o rio, para fornecerem agua de rega. Recorta-se no horisonte, á esquerda, o Caramulo, de pincaros atrevidos, e vê-se á direita o macisso da Serra da Estrela, em que o Jorge Nunes, afincando a vista, quer por força vêr neve. Na maior parte das estações o movimento é zero, não entram nem saem passageiros, não se carregam nem se descarregam mercadorias, e não me lembro de ter visto nas estradas poeirentas, em muito bom estado de conservação, rodarem carros ou automoveis.

Lentamente se arrasta o comboio, mas como se vai arrastando sempre, acabará por chegar ao destino.

E assim foi que tendo deixado Lisboa pela manhã, ás quatro horas da tarde chegamos a Vizeu, com um calor de rachar."

 

in Brito Camacho (1862-1934), Jornadas (1927).

 

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Fevereiro 13 2009

 

9 – Portugal – Chaves – Largo Rui e Garcia Lopes e Rua da Ponte

Bilhete postal da década de 1920.

Edição da "Sociedade de Defeza e Propaganda de Chaves". Cliché da Fotografia Alves – Chaves.

 

"O dr. Antonio Granjo, que vamos procurar ao seu escritorio, mete-se no automovel comnosco, e aqui vamos, de alegre cavaqueira, a caminho de Verin, mal tendo reparado na ponte de cantaria, obra romana do começo da era cristã, que atravessa o Tamega, ligando os dois bairros da vila, uma soberba ponte de muitos arcos, uns dezoito, votada á gloria do imperador Vespasiano."

 

in Brito Camacho (1862-1934), Jornadas (1927).

 

11 – Portugal – Chaves – Aspecto Parcial da Cidade

Bilhete postal do final da década de 1920 (Chaves foi elevada a cidade em 1929).

Edição da "Sociedade de Defeza e Propaganda de Chaves". Cliché da Fotografia Alves – Chaves.

 

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Fevereiro 12 2009

7 – CHAVES   Nascentes das Águas Termais

Postal editado pela Casa Geraldes em data desconhecida (depois de 1934; provavelmente na década de 1940), com cliché da Foto Alves.

 

"Entrei nesse fantastico estabelecimento balnear, e fiquei horrorisado de tanta mizeria, tanta porcaria, os doentes para ali estendidos, homens e mulheres, numa promiscuidade biblica, muitos d'eles agravando os seus padecimentos, porque o uso da agua lhes está contra indicado. Cada qual come o que traz ou compra na Vila, e paga um pataco de fogão, diz-nos a cosinheira da casa.

 

Apraz-me acreditar que este miseravel estado de coisas durará só até que aqui chegue o comboio, e que Chaves, aproveitando inteligentemente as suas ricas aguas, se tornará grande e prospera, uma das mais frequentadas Estancias de Portugal, com numerosa clientela de estrangeiros, que a preferirão a tantas outras que hoje são rendez-vous obrigado dos ricos, que necessitam de hidroterapia."

 

in Brito Camacho (1862-1934), Jornadas (1927).

 

Vista nocturna, parcial, das actuais instalações balneares e da sua envolvente.

 

Para informações sobre as Termas de Chaves, consulte http://www.termasdechaves.com/.

 

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Fevereiro 11 2009

8 – Portugal – Chaves – Nascentes das Aguas Termais

Postal editado pela Sociedade de Defesa e Propaganda de Chaves na década de 1920.

  

"De corrida, que o tempo não dá para grandes vagares, vamos de visita ás suas thermas, que ficam dentro da vila, á margem de uma pequena ribeira, denominada Rivellas, muito modesta, e que a poucos metros dali se perde no Tamega. Duas pequenas fontes, sem cobertura, onde a agua borbulha a perto de 70 graus, e uma outra fonte, maiorsinha, com abóbada, tambem de agua a escaldar. São aguas alcalinas, mineralisadas, como as de Vidago e Pedras Salgadas, mas quentes até á ebulição, visto que a sua temperatura, segundo me afirmaram, anda por 70º. Pois bem: estas aguas medicinaes, de valor igual ao das mais afamadas da Europa, são aproveitadas tão somente para usos domesticos – escaldar galinhas, musgar leitões e lavar casas. Que houve ali, no tempo dos romanos, um grande estabelecimento balnear, mas dele não restam vestigios, e o que ali se vê hoje, no genero, é uma ignobil casa onde se alojam, de mistura com suinos, os desgraçados que veem de longe, no desespero das boticadas, socorrer-se da virtude curativa das aguas."

 

in Brito Camacho (1862-1934), Jornadas (1927).

 

 

Em cima, vista parcial das estruturas do balneário termal de Aquae Flaviae, recentemente descoberto no Largo do Arrabalde e ainda em fase de intervenção arqueológica. Apesar de as águas pluviais também ali se acumularem, o espaço das piscinas encontra-se essencialmente inundado por água quente, canalizada a partir de uma nascente não localizada até ao momento, com características semelhantes às da  água disponibilizada nos actuais balneários.

 

Em baixo, imagem da autoria de Fernando Ribeiro que ilustra a implantação dos vestígios descobertos e proporciona uma perspectiva comparada da sua escala. Para uma notícia alargada sobre os vestígios e o espólio encontrado consulte: http://chaves.blogs.sapo.pt/319912.html.

 

 

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