Rua Onze . Blog

Dezembro 14 2009

 

Fotografia autografada da actriz  Beatriz Costa (1907-1996), com os seguintes carimbos no verso:

 

"O produto da venda deste postal / reverte a favôr do actor MÂRIO [sic] / CAMPOS [1888-?], inválido pela cegueira." (a vermelho)

 

"FOTOGRAFIA BRASIL / SILVA NOGUEIRA / Rua da Escola Politecnica [sic], 141 / Lisboa" (a azul)

 

De acordo com a obra Beatriz Costa, Álbum de Retratos (2007), que reproduz uma outra cópia desta imagem, a fotografia data de 1937.

 

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Dezembro 11 2009

 

Por entre os aromas, as cores e as vozes, o rosto de Liang ergueu-se. Uma sorridente lua cheia, pairando por instantes sobre a mesa, iluminando o enlevado olhar do convidado. Um olhar que se perdia nos movimentos suaves que a faziam levitar e a levavam para além da sala.

 

Regressou pouco depois, acrescentando solenidade ao sorriso quando entregou uma pequena caixa de madeira a Tchang. O ancião recebeu-a com cerimónia, sorrindo também para Liang. "Obrigado, Xue", disse. Estranhou aquele tratamento, que misturava duas línguas e lhe lembrava o chamamento que pela primeira vez o levara a entrar na loja.

 

Tchang estendeu então as duas mãos para o convidado, oferecendo-lhe a caixa com grande solenidade. Recebeu-a, aguardando as palavras que deviam acompanhar a oferta, como era tradicional. E as palavras vieram, breves e sincopadas. "Para que deixe a sua marca onde quiser e quando quiser. Um pequeno sinete. Por favor aceite-o como prova da nossa amizade."

 

Aceitou em silêncio, sorrindo e baixando levemente a cabeça. "Aceito, com grande regozijo pela nossa amizade", disse depois. E nada mais acrescentou. Sabia que o resto da satisfação deveria ser traduzida por gestos e expressões de admiração perante o objecto.

 

Notou que a caixa era folheada a madeira de carvalho. Madeira de veios largos e longos, madeira de árvore velha. Poderiam ter utilizado qualquer uma das muitas e preciosas madeiras orientais. Mas não, haviam escolhido precisamente o carvalho. Madeira que teria vindo da Europa, ou então do Japão. Não era comum na China. Sabiam o seu significado para os europeus.

 

Levantou cuidadosamente a tampa. No interior, entre a sumptuosidade de um veludo carmim e o aroma da cânfora, estava o sinete. Uma peça delicada, com um dragão cinzelado em espiral. Símbolo da longevidade. Levantou os olhos para Tchang, que leu o agradecimento no seu olhar e lhe disse: "Está em branco, para que possa colocar as iniciais que entender, quando entender".

 

Lembrou-se do leque em branco que lhe haviam oferecido no Sibajak e das palavras que acompanharam a oferta: "Um leque destes lembra-nos o resto da nossa vida, os anos que ainda temos para viver, aquilo com que queremos preencher esse espaço. Sempre poderemos escolher o tecido e a decoração a nosso gosto..."

 

Liang olhava-o também. E assim ficou o seu olhar, suspenso entre Tchang, o sinete e Liang. "Em que estás a pensar?", perguntou a si próprio. Não, não queria pensar, nem queria sentir.

 

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Novembro 20 2009

 

Xilogravuras de Attila Mendly de Vétyemy (n. 1911).

 

Publicado em 1937, para comemorar a primeira Exposição Histórica da Ocupação, este volume de Silva Tavares (1893-1964) estabelece claramente um cruzamento dos modelos de Os Lusíadas (1572), de Luís de Camões (1524?-1580), e da Mensagem (1934), de Fernando Pessoa (1888-1935), para exaltar a  imagem do Estado Novo e do colonialismo.

 

O poema divide-se em sete partes – I, Por mares nunca dantes navegados; II, África misteriosa; III, Exploradores do mato; IV, Missões e missionários; V, O despertar da soberania; VI, Soldados da Ocupação; VII, À Mocidade portuguesa.

 

Constituindo uma obra literária menor, o livro não é notável a não ser em algumas xilogravuras e na carga ideológica patente, de que as três dedicatórias são paradigmáticas – "Aos Missionários, Soldados de terra e mar, e Pioneiros do Ultramar, Defensores da Fé, e do Império; A Sua excelência o General António Óscar de Fragoso Carmona, Venerando Presidente da República, Homenagem e testemuno da gratidão do mais humilde dos portugueses pelo ressurgimento de Portugal; A Sua Excelência o Doutor António de Oliveira Salazar, Grande português a quem os portugueses devem o Acto Colonial".

 

 

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Novembro 12 2009

 

Berlin   Dom und Schloßbrücke

Bilhete postal circulado de Berlim para Lisboa, em Maio de 1937.

Edição de W. St. B. (?).

 

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Novembro 09 2009

 

À entrada, estendeu a Tchang a tacinha de prata, que a recebeu juntando as mãos, honrando a oferta como se honrasse o convidado. Delicada e atenciosamente, virou a sampana para ver o fundo da taça, onde estava a imagem de Chang Kai-Chek. "Aah! Wai Kee...", murmurou, sorrindo, ao ver a marca do ourives.

 

Fez depois um gesto a uma serviçal, entregando-lhe cerimoniosamente a taça. Esta lavou-a uma e outra vez, secando-a e enchendo-a com uma bebida cor de mel. Entregou-a de seguida ao convidado. Tchang acenava-lhe levemente, sugerindo que a aceitasse. "Seja bem-vindo! O que era seu passou a ser meu, a nossa refeição passará a ser a sua."

 

Bebeu. Era um líquido fino e adocicado, que escorria tão facilmente como a água. Devolveu a taça à serviçal, que de novo a lavou e encheu, entregando-a a Tchang. Só então Liang se aproximou, saudando-o respeitosamente. O seu olhar deixava transparecer uma alegria íntima que mal se notava no sorriso. Recebeu o envelope vermelho das mãos do convidado com o recato que se esperava dela, obtendo antes, com o olhar, a aprovação do tio-avô.

 

Outra serviçal veio receber o terno enfeitado que ele também acabara por trazer, levando-o para a cozinha. Enquanto a porta se abria e fechava, os aromas da comida chegaram à sala e a vertigem que sentira nas ruas voltou. Tudo se misturava, tudo era indefinido, nada tinha um só cheiro.

 

Mal conseguira chegar à mesa e mal se sentara quando a comida começou a ser servida. Carnes preparadas de mil e uma maneiras. Não conhecia a maior parte dos pratos. Foram-lhe dizendo. Capela de porco, galinha assada, galinha kai-pin, inhame chau-chau com lap-yôk, lacassá, ló-pak-cou, margoso lorcha, missó cristão, pato pák-sáp, chau-chau de pele. Uma explosão de vapores, de aromas e de cores.

 

A vertigem continuava com os vegetais, o peixe e o cheiro de balichão nos temperos. Couve recheada, couve-flor frita, chai de bonzo, yeu pin, casquinha de caranguejo. E prolongava-se com os doces. Genetes, doce de camalenga, fatias da china, doce de cha-cha, saransurável. Ainda não provara nem metade de tudo aquilo e já se sentia satisfeito.

 

Mal seguia as conversas, mal recordava as palavras. Apenas via com clareza expressões de satisfação e sorrisos nos rostos que o rodeavam.

 

 

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Agosto 05 2009

 

Ribeiro Couto (Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto, 1898-1963), Présence de la Petite Thérèse (1937; tradução do ensaio Presença de Santa Teresinha, 1934)

 

 

Ribeiro Couto notabilizou-se enquanto jornalista, ensaísta, contista e poeta, tendo contado com Manuel Bandeira (1886-1968) como um dos seus grandes amigos e companheiros literários.

 

Exercendo actividade diplomática em França a partir de 1928, data em que o presente ensaio começou a ser escrito (uma nota biográfica da Fundação Casa de Rui Barbosa [http://www.casaruibarbosa.gov.br/dados/DOC/literatura/ribeiro_couto/biografia.htm] refere que Ribeiro Couto foi nomeado para o Consulado de Marselha em Julho de 1929, mas o próprio autor, nesta obra, regista a sua estadia em França a partir de 1928), veio para Portugal entre 1944 e 1946, como encarregado de negócios do Brasil.

 

Esta estadia permitiu-lhe desenvolver estreitos laços com inúmeros escritores e intelectuais portugueses, entre os quais Miguel Torga, bem como aprofundar a ligação ao país, de onde sua mãe era originária.

 

As suas obras mais consagradas serão, provavelmente, o romance Cabocla (1931), que deu origem às telenovelas homónimas de 1979 e 2004, e o livro de poesia, escrito em francês, Le Jour est Long (1958), pelo qual recebeu em França o prémio internacional de poesia para estrangeiros.

 

Neste opúsculo, Ribeiro Couto, para além de construir uma narrativa e uma visão biográfica de Santa Teresinha do Menino Jesus (Thérèse de Lisieux, 1873-1897), apresenta-nos ainda pequenas notas sobre o itinerário por si percorrido em França – Le Havre, Harfleur, Lillebonne, Villequier, Caudebec, Saint-Nicolas de Bliquetuit, Forêt de Brotonne, Pont-Audemer, Pont-l'Évêque – até chegar a Lisieux.

 

 

Destas notas, trancrevem-se os cinco parágrafos dedicados a Le Havre:

 

"Ciel gris, calfeutré d'étoupes. Dans la rue de Bordeaux, les bruits de la cité qui s'éveille paraissant amortis par l'air humide. La fleuriste de la place Gambetta est blonde et forte: son geste, haussant devant moi un chysanthème rouge, est celui d'une combattante de barricade présentant avec énergie l'étendard révolutionnaire. Je lui tends un billet de cinq francs, et je m'en vais, le chrysanthème au poing, souriant avec sympathie pour justifier cette largesse.

 

Je me proméne au long des quais. dans le bassin du Commerce il y a des yatchs blancs, des canots automobiles et des voiliers d'agrément. C'est le quartier de luxe des eaux du port.

 

Quai Lamblardie, quai Southampton... Senteur complexe des villes maritimes de trafic intense: parfum d'oranges, souffle de goudron, relents de moisi mêlés à la puanteur des fermentations inconnues, camaraderie aérienne de bonnes et de mauvaises odeurs.

 

Aux grandes darses et aux long des môles, des navires dévorent des fardeaux, dans le fracas des grues mobiles. Tous les océans ont arrosé ces tillacs de leurs vagues; ces proues ont fendu la bourrasque sos toutes les latitudes.

 

Des murailles de pierre, dans les eaux troubles, envahissent l'estuaire et se perdent, fines et longues, sous la brume de l'océan, avec des phares à chaque pointe. Elles reçoivent les premières confidences des vents du large."

 

Uma Noite de Chuva e Outros Contos (1944), com capa de Paulo Ferreira (Paolo, 1911-1999) e ilustrações de António Dacosta (1914-1990). Este volume recolhe contos anteriormente publicados em A Casa do Gato Cinzento (1921), Baïaninha e Outras Mulheres (1927) e Largo da Matriz (1940), apresentando pela primeira vez em livro o conto Milagre de Natal, que em 1941 havia sido publicado na revista mensal Ilustração Brasileira.

 

No seu Diário III (1946), Miguel Torga (pseudónimo de Adolfo Rocha, 1907-1995) regista a seguinte anotação sobre Ribeiro Couto:

 

" Conimbriga, 13 de Junho [de 1944] – Outra visita a estas pedras queimadas pelos Suevos. Desta vez, porque estava na companhia de um brasileiro ilustre, o Ribeiro Couto, dispus-me a ouvir o cicerone, e aprendi finalmente que foram os Suevos que estragaram o arranjinho aos  romanos que gozavam isto.

 

E já que falo em cicerones, quero confessar-me de um pecado grave: nunca até aqui os tinha amado. Odiava-os mesmo ferozmente. Pareciam-me fonógrafos sem coração, sem cérebro, incapazes de um sentimento qualquer por detrás das maravilhas que mostravam. Mas hoje mudei de ideias. Já aqui há uns tempos, em Mafra, diante de um homem destes, pudico, preciso e sensível, fiquei de nariz no ar. Esta tarde, porém, é que a nuvem se abriu. "

 

Para uma pequena referência bio-bibliográfica à professora Andrée Crabbé Rocha (1917-2003), ver http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/148104.html.

 

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Junho 15 2009

 

Capa de autor não identificado para o livro Au Paradis des Grands Fauves: Voyage dans l'Est Africain (1937; presente edição, 3.ª, 1944 [Lausanne]), de Fred Blanchod (1883-1963).

 

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Abril 10 2009

 

As ruas que conseguia distinguir de sua casa haviam desaparecido. Eram agora um conjunto vivo de linhas onduladas e estonteantes, saindo de corpos comprimidos, soltando sons desencontrados. Os diálogos pareciam solitários monólogos perdidos entre a neblina que saía de todas aquelas bocas. Estava a ficar frio. Voltou a ter arrepios. Nunca sentira frio nas ruas de Macau, nem mesmo em Janeiro, quando as noites haviam chegado a ter temperaturas negativas.

 

Olhava atónito para o hálito translúcido e apressado que acompanhava cada frase. Não se arrepiava por causa do frio. Arrepiava-se por todos aqueles sons que lhe causavam estranheza. Parecia ter esquecido todas as frases e todas as palavras aprendidas até ali. Aquelas pessoas falavam agora de coisas de que nunca falavam ao longo do ano. Perdida a linha familiar das ruas, só os aromas lhe diziam que sim, que aquela era a mesma cidade que ele julgava conhecer.

 

Parou, encostando-se às colunas de S. Domingos. O trajecto entre sua casa e a loja de Tchang era curto, mas nunca lhe parecera tão longo. Parara porque necessitava de se preparar. Não sabia o que poderia esperar daquela celebração. Tchang e Liang, que lhe pareciam tão familiares, poderiam parecer-lhe tão estranhos como estranhas lhe pareciam agora as ruas e a cidade.

 

Inquietou-se. Levou as mãos aos bolsos, verificando os pequenos presentes. Ficou inseguro. Sentir-se-iam insultados por eles? Imaginava o seu ar constrangido e embaraçado quando duas figurinhas se aproximaram, ondulando entre a multidão. Faziam lentas e respeitosas vénias, sorrindo levemente. Ao fundo, atrás delas, estava Tchang, também sorridente. Aguardavam-no, já. À porta de casa, em sinal de cerimonioso respeito.

 

Então ele, um estranho, um estrangeiro naquela cultura, endireitou-se e dirigiu-se, também sorridente, em direcção a Tchang, enquanto as frágeis figurinhas iam abrindo caminho. Pareciam ter a dignidade de duas pequenas esculturas animadas, duas esculturinhas Fu, saídas de alguma grande casa senhorial. 

 

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publicado por blogdaruanove às 23:58

Março 30 2009

 

Lá fora o barulho das celebrações continuava. A multidão percorria as ruas em êxtase, numa alegria inconcebível para a maior parte dos chineses noutros dias, sem saber muito bem para onde ia, nem porquê. Muitas pessoas pareciam andar pelas ruas sem destino. Tal como ele parecia divagar sem qualquer finalidade.

 

Teria que se levantar e sair, para honrar a promessa feita a Liang e agradecer a hospitalidade de Tchang. Mas o esforço parecia-lhe enorme. Levantar-se. Convencer-se que teria de movimentar o corpo, que teria de conviver com outras pessoas... Parecia-lhe inútil a conjugação de todo aquele esforço. Sentiu-se tão minúsculo como um netsuke. Encerrado na caixa de segredo que lhe haviam oferecido, era um daymio erecto, de madeira dura, mas sem espada. Um daymio que se fundia com o labirinto de madeira perfumada e macia da caixa, diluindo-se nos aromas que dela se evolavam...

 

Ergueu-se. Caminhou para as janelas e abriu as gelosias de cima, de par em par. Deixou que a luz o magoasse, entrando-lhe pelos olhos bem abertos. Olhou para as ruas, para  a multidão, para o mar, deixando-se penetrar pela luz e pelo ruído. "Em que estás a pensar?" Sorriu. "There are more things, Horatio..." Shakespeare recordado e treslido, um sonho de uma noite de verão num fim de tarde oriental. Sentir e recordar era melhor que pensar.

 

Sentiu vontade de se perder na multidão, de ser levado sem destino por aquela torrente.

 

Irreflectidamente, despiu-se e ficou na penumbra, sentindo a aragem que vinha da rua. Esteve assim breves momentos, até sentir a pele arrepiada. Lavou-se depois com água tépida. Fez a barba uma e outra vez, escanhoando-se aqui e ali. Afinal, era Ano Novo. O seu primeiro Ano Novo Chinês!

 

Surpreendeu-se com o murmúrio cantarolado que lhe ia saindo das narinas. Viu no espelho o esboço de um sorriso de satisfação. Afinal estava contente...

 

Vestiu-se e precipitou-se para as escadas, descendo ritmadamente os degraus, de dois em dois, e voltando às vezes atrás, como se estivesse a ensaiar um passo de dança.

 

Entrou na rua como se aquele fosse o seu mundo e nunca tivesse estado em nenhum outro sítio. Aquele era o seu mundo, aquela era a sua vida. Ninguém mais a poderia viver, ninguém mais a poderia sentir.

 

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publicado por blogdaruanove às 23:53

Março 11 2009

 

Capa de Alvarez (José Cândido Dominguez Alvarez, 1906-1942) para o romance A Última Dona de S. Nicolau (1864; presente edição, 4.ª, 1937), de Arnaldo Gama (1828-1869).

 

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publicado por blogdaruanove às 15:42

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