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Julho 08 2009

 

Mendes de Carvalho (1925-1988), Camaleões e Altifalantes (1963).

 

 

Com esta colectânea, Mendes de Carvalho surge como um poeta iconoclasta e desassombrado, recuperando muito do que de contestatário e anarquista poderia ter havido num surrealismo menos onírico.

 

Aspecto significativo, no entanto, é o facto de a sua poesia recusar qualquer afastamento dadaísta ou surrealista da realidade, característica daqueles movimentos da década de 1910 e 1920 e do tardio sucedâneo surrealista português, e reflectir uma auto-ironia sobre a criação literária do poeta, que acaba por denunciar o próprio (d)enunciante.

 

Anteriormente, Mendes de Carvalho havia publicado os volumes de poesia Timbre (1948) e A Voz e o Círculo (1955), o volume de teatro A Comédia e a Rua (1958) e o volume de contos O Rei de Montoyya (1960), mas este livro é que veio introduzir o seu período mais significativo e personalizado, que continuou em Cantigas de Amor & Maldizer (1966), Satírica (1974) e Poemas de Ponta & Mola (1975).

 

Mendes de Carvalho publicou ainda A 10.ª Turista (1972) e a peça infantil Aventuras de Animais e Outros Que Tais (1982; em co-autoria com Orlando Neves [1935-2005]). Postumamente, numa homenagem que pretendeu recuperar a singularidade da sua poesia, publicou-se o volume Noite Branca: Poesia (1994), com apresentação de Urbano Tavares Rodrigues (n. 1923), um estudo de Fernando Grade (n. 1943) e ilustrações de Álvaro Infante do Carmo (datas desconhecidas).

 

De Camaleões e Altifalantes transcrevem-se dois poemas:

 

   LUGAR

 

   O sol no asfalto queima

   uma velha cabeceia à soleira da porta

   a magnólia abre sonhos brancos

   inúteis

   a vila parece longínqua

   morta.

 

   Apenas um pássaro canta

   esquecido dos caçadores.

 

   DENÚNCIA

 

   Denuncio a máquina de fabricar tristeza

   denuncio os assassinos da paisagem

   o verso e o reverso das escritas secretas

   as organizações da angústia nocturna

   os que precisam de criada para todo o serviço

   e para uso próprio do menino da casa

   os investigadores puristas da moral alheia

   a oferta de flores injectadas de veneno

   os que escrevem cartas de recomendação

   os que apunhalam reputações com risos a três quartos

   os que recebem à linha para dizer bem ou mal

   os que têm a sua religião para as ocasiões

   os segregacionistas das little rock

   o santo e a senha de todos os lados

   os fabricantes de morfina com nomes potáveis

   a poética dolorosa de conversa fiada

   e [sic] arame farpado camuflado em fitas de inauguração

   os que têm coração apenas para as setenta pulsações

   denuncio os denunciantes.

 

 

Na autobiografia publicada em Satírica, Mendes de Carvalho escreveu:

 

" (...) Chateado com muitas coisas (algumas secretas), começou a fazer poesia de canino aguçado e publicou 'Camaleões e Altifalantes'. A editora era muito importante. Os críticos leram e, de um dia para o outro, acordou (também) importante. Ficou muito contentinho. Na mesma editora (o livro vendeu-se bem), saiu, três anos mais tarde, 'Cantigas de Amor & Maldizer'. Os críticos confirmaram que sim senhor e alguns falaram da sua família poética, uns tipos famosos. Como nesse tempo usava barba, afagou-a muito, muito compenetrado. Mais ou menos por essa altura, co-dirigiu uma revista de artes e letras, que teve pouca duração (para não fugir ao costume). Em 1972 (na maturidade), publicou 'A 10.ª Turista', peça muito discutida (é assim que é hábito dizer-se), mas não representada (é assim que é hábito fazer-se).

 

Se o leitor chegar até ao poema 'Antibiografia em trânsito', verificará que o autor é contra as biografias, especialmente as de pequeno curso, de navegação costeira. Dá-lhe vontade de rir (quando lê) o elasticizar do biógrafo a falar do biografado, a meter-se na sua vida, simpaticamente quando a 'celebridade' ainda anda por cá. (...) "

 

Note-se que no volume Camaleões & Altifalantes reproduzido, que pertenceu ao escritor, académico e crítico literário Luís Forjaz Trigueiros (1915-2000), se encontra assinalado o poema Chiado.

 

Capa do livro Satírica, incluído na colecção Pequeno Tesouro e publicado em Março de 1974.

 

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