Rua Onze . Blog

Maio 14 2009

Bilhete postal circulado em Outubro de 1908.

 

"Naquela meia claridade de tintas esbatidas, ainda com os horizontes embaciados pela neblina que se evapora do mar e as luzes da cidade a esvairem-se em suspiros e bocejos de tédio, andam já em constante movimento grupos de trabalhadores, homens e mulheres para os quais o dia começa muito antes do amanhecer... A fisionomia característica do porto principia, porém, a desenhar-se em nítidos perfis quando as silhuetas confusas se fundem aos rubros clarões do Sol e as figuras e os vultos, ainda há pouco indecisos na tímida claridade matutina, sobressaem em salientes contornos no cenário de radiante policromia, enquanto  o astro começa a subir no céu pálido e um dilúvio de oiro se derrama sobre as colinas e corre para o rio.

Principia a crescer e a esfarelar-se no ar um rumor de vozes, de mistura com redemoinhos de roldanas, apitos, chiadeiras de rodas e sarilhos de ferragens, rodopios de sons finos e penetrantes que parecem cortar os nervos e se enredam nos cabrestantes ou nas engrenagens dos potentes guindastes, entre labaredas e coriscos, nas fornalhas dos estaleiros; e tudo isto se mistura com o rumor turbulento que vem dos barcos fundeados perto de terra e a  algazarra a alardear pelos molhos fora e a tornar-se mais intensa nas descargas e nas lotas do peixe, na Ribeira Nova e no Frigorífico de Santos.

Do bojo alcatroado dos barcos que andam a bailar ao sabor da mareta, saltam de contínuo para a chusma de lanchas e pequenos botes, que logo viram para o pontão ou para as escaleiras escorregadias da muralha, suja de limos, os cabazes de sardinha, do carapau, o peixe miúdo, reluzente, com fosforescências, dir-se-ia que em rolos de prata viva."

 

in A Cidade das Mil Cores (1946), de César dos Santos (1907-1974).

 

 

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publicado por blogdaruanove às 11:57

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