Rua Onze . Blog

Maio 14 2009

Bilhete postal de início do século XX.

 

"Na lota chamada de consumo, são as varinas, as peixeiras dos mercados, os pequenos negociantes a disputar cada "teca", num alvoroçado despique, em que se entremeiam as livres expressões do pitoresco fraseado da gente do mar:

– Vinte ! dez ! cinco !... – O preço vai descendo até que algum dos compradores grite a frase característica do remate:

– "Chui !" O peixe é meu !

– Compraste bem, ó Encarnação !...

– Larga a amarra, ó Chico, que o dinheirinho custa muito a ganhar...

– Ah, se o mar secasse, não tinhas cordões de oiro, Maria Petinga !...

– Cala-te, "selvage"... Deus  te cubra de "benções", malvado, alma de chicharro, que a tua fala não chega ao céu...

– O céu é lá na cama onde tu dormes com o teu homem, santinha...

E toda aquela gente anda numa dobadoira, numa roda viva, a arrastar os cabazes para a babugem da água, a lavar o peixe e a acamá-lo nas gigas, cada um a falar por seu lado, numa algaraviada em que se confundem as pragas com as gargalhadas, os dichotes com os gritos dos compradores ajoujados ao peso das caixas, a escorrer sangue vivo que purpureja as pedras e os charcos dos molhes.

 

Bilhete postal circulado em Dezembro de 1932. Ilustração de E. B. Felismina (datas desconhecidas).

 

Na lota da indústria, quando não falta a folha-de-flandres, são os conserveiros quem arremata o pescado; e andam os delegados dos grémios, os guardas-fiscais e outros funcionários numa azáfama pegada, a conferir, a observar, a impor tabelas e regulamentos, sempre sofismados pelos traficantes.

Para o Frigorífico de Santos, mais abaixo, a seguir ao cais da Insulana, vão os vapores que trazem do Cabo Branco, do mar largo, o peixe grosso: os pargos, as grandes pescadas do alto, os peixes-espadas, os congros, os robalos, os cachuchos – torvelinho de oiro, com laivos rubros e escamas prateadas, que, aos reflexos do Sol e através dos cristais de gelo, adquirem cintilações magníficas, como as refulgências marinhas nos brancos-azulados das ondas inquietas.

O peixe é oiro, mas quando o há, quando ele vem à rede ou não o afugentam das zonas da pesca ou quando os barcos não ficam imobilizados, por falta de combustível, como acontece nos tempos calamitosos de guerra.

Mas, Lisboa, às vezes, esquece-se disto e só pensa em saborear a sardinha assada, nos botequins da Outra Banda, e o delicioso peixe frito, nas feiras e romarias e nos retiros arrabaldinos..."

 

in A Cidade das Mil Cores (1946), de César dos Santos (1907-1974).

 

 

© Rua Onze . Blog 

publicado por blogdaruanove às 17:22

Aki ó-matsu Hito ó-mayowasu Momiji-kana!...
mais sobre mim
pesquisar
 
Maio 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9






Visitas
blogs SAPO